Tomem tenência!

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(Se vc ainda não viu o capítulo de ontem de Avenida Brasil, veja aqui)

Se tem uma tecla em que eu bato é que a cultura pop pode e deve ser levada a sério, pois ela reflete os valores das sociedades onde são produzidas. A mídia é um dos mecanismos mais importantes de reprodução do status quo.  Então, todo apoio à galera que tenta destrinchar como o machismo é reproduzido na cultura de massa. Mas, porém, contudo, entretanto, todavia. É preciso tomar cuidado para não cair em vícios de análise e raciocínios simplistas.

– Nem toda cena de mulher apanhando é necessariamente cena de violência doméstica. Depende da trama, depende do contexto.

— Carminha não apanhou apenas de Tufão, mas de Tufão e Muricy. Ivana, se não fosse impedida, também teria batido. Ou seja: não é uma cena de um homem subjugando uma mulher, mas de um barraco generalizado. De uma catarse. A família toda se sentindo traída, batendo e xingando.

– Os petelecos que Carminha levou de Tufão e sua família são um caso de machismo? No contexto da trama, não. Tufão nunca tratou Carminha como sua propriedade. Não bateu nela por ciúmes, porque ela o desobedeceu ou queira deixá-lo. Tufão nunca agiu como se tivesse direitos sobre a integridade física da Carminha por ser homem. Muito pelo contrário. O personagem é tudo, menos um machão. Tufão é um personagem sensível, muito mais “feminino” que a própria Carminha. A Carminha NÃO É uma Maria da Penha, impedida de sair de casa e eletrocutada pelo marido. Eu vejo muito, mas muito mais machismo no tratamento que Leleco dava a Tessália (principalmente depois que ela o deixou) e o engraçado é que não vi nenhum(a) feminista falando disso na rede.

— Tufão e a família não bateram em Carminha apenas porque ela teve um caso extraconjugal. Bateram nela porque ela enganou, mentiu, roubou, jogou criança no lixão, enterrou gente viva, forjou o próprio sequestro, tentou matar uma pessoa… Vale lembrar que Muricy, assim como Carminha, teve um caso extraconjugal debaixo da fuça do marido, dentro de casa. Mas, ao contrário de Carminha, a história dela foi retratada com humor.

— Aliás, essa novela está repleta de personagens femininas traindo e periguetando, como Olenka, Suellen e a carola que no fim ficou possuída pelo ritmo Ragatanga e virou atriz pornô. A própria Nina usou da sedução pra levar o Max na lábia. Nenhuma dessas personagens foi condenada, humilhada ou espancada por seus comportamentos sexuais. Muito pelo contrário: Olenka e Suellen, por exemplo, têm a simpatia do público.

— Assim sendo, acho que o desfecho da Carminha não deve ser lido como uma questão de moral sexual ou de gênero (haja vista que o Max, seu parceiro, também apanhou pelos mesmos golpes), mas sim de moral num sentido mais amplo. Não foi a personagem “adúltera” quem apanhou. Mas sim a personagem que, além de “adúltera”, foi também estelionatária, ladra, golpista, assassina.

— O fato das novelas terminarem com a vilã levando porrada reflete a mentalidade truculenta brasileira? Sim, claro, é óbvio. Outras culturas talvez não veriam a cena como catártica, como nós vemos. Porque nós somos um povo que lincha na rua. Nós somos um povo Lindomar. Isso tem que ser revisto e criticado? Sim, claro, é óbvio. Mas também temos que pensar na novela como formato, como gênero narrativo.  Sua função primordial é entreter. Teria graça uma trama em que Carminha, depois de fazer tudo o que fez, fosse gentilmente convidada a se retirar da casa e terminasse processada por Tufão? Claro que não. Não teria emoção.

— Outra coisa de que não podemos nos esquecer é que os consumidores de cultura de massa não são burros nem passivos. Eles se envolvem ativamente com os produtos culturais, escolhendo os aspectos com os quais se identificam (pra quem se interessar sobre isso, recomendo ler Sue Tornham). Veja, por exemplo, que apesar da Carminha ser a vilã golpista-assassina-adúltera, ela tem um lado engraçado e humano, e as pessoas simpatizam com ela. Aliás, taí o legal de Avenida Brasil: ela foge de alguns dos clichês de novela. Nina e Carminha praticamente se equiparam na maldade e no egoísmo, não existe mocinha e bandida. Quem acompanhou o twitter ontem na hora da novela viu que o pessoal, ao mesmo tempo em que curtia ver a Carminha finalmente se ferrando por seus crimes, também curtia o “sincericídio” dela, e meio que torcia por ela. Ao apanhar, Carminha não foi humilhada. Pelo contrário: ela apontou também os defeitos e hipocrisias da familia de Tufão.

— Se vocês conseguem ver o que há de errado na novela, saiba que o público em geral é tão inteligente quanto você. Acho paternalista agir desse jeito: “não pode ter cena assim, porque senão as pessoas vão achar legal e fazer igual!”.  E essas “pessoas” são sempre os outros e não o sabichão que profere a frase — este sim, conhece a verdade. Podem ficar tranquilos porque as pessoas *sabem* que descer a porrada tá errado. E que, no dia a dia, esse não é o melhor jeito de resolver as coisas. Curtir ver a vilã tomando uma porrada não significa que você vá achar isso certo na vida “real”,  automaticamente.

— A naturalização da violência contra a mulher se dá por uma série de mecanismos e instituições que se complementam e se repetem (vide Judith Butler). Está muito mais ligado a como construímos os conceitos de masculinidade e feminilidade. A cena da queda da Carminha não faz um statement sobre normas de gênero. Faz um statement sobre normas de conduta gerais (não mentir, não roubar, não matar).

Vamos criticar o machismo na televisão? Sim, mas calma na análise. Tomem tenência!

PS — eu não sou noveleira. Avenida Brasil é a primeira novela que assisto em anos (e peguei um pouco antes do capítulo 100, de tanto o povo comentar). Então minha análise fica restrita a essa novela em particular mesmo. A Iara fez um post sobre como é comum mulheres apanharem nas novelas. Parece que é corriqueiro punir adúltera com porrada. Então fica aí o link como contraponto =) Se isso é mesmo algo comum, eu concordo com ela. Dá pra punir as vilãs de outras maneiras, ou até mesmo questionar a necessidade de punir. Mas continuo achando que a cena da Carminha tá ok. Porque ela saiu super por cima dos tapas.

Your body

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http://www.youtube.com/watch?v=6cfCgLgiFDM

Que vocês acharam desse clipe da Christina? Eu achei duas coisas interessantes:

1) A letra da música. Sempre bacana ver uma mulher assumindo que tem desejo sexual, objetificando os caras e mostrando que isso pode ser desconectado de romantismo.

A versão original da música diz “All I wanna do is fuck your body” — o que eu acho que combina bem mais com o resto da letra, que vai na linha “não quero nem saber seu nome, vamo se pegar aê”. Mas pra ficar comercial, botaram um love. Pena. Porque tem muita música por aí com fuck no meio e o mundo continua  girando.

2) Não entendi muito bem qual o ponto de sair matando os caras, mas achei interessante essa coisa de fofurização da violência. Então cê pega uma coisa que é masculina (a violência) e a recobre com uma camada de feminilidade bem exagerada: explosão cor de rosa, sangue azul pastel, vísceras de glitter. 

É engraçado como é justamente essa camada de feminilidade exagerada que faz o clipe não ser controverso. Fosse sangue vermelho e explosão de verdade, o vídeo provavelmente seria censurado e a Christina, criticada. Mas, sendo uma violência “feminina”, “fofa”, então é inofensiva, é de mentirinha, não é pra ser levada a sério. Outra maneira de ler isso é que a Christina tá submetendo o masculino ao feminino. Quando morrem, os caras (hetero) são transformados em purpurina. Ela aniquila assim a masculinidade deles. Uma coisa meio vagina dentata meets hello kitty.

Que tem a ver o cu cas calça?

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Porque o jornalismo brasileiro não cansa mesmo de surpreender…

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1103269-torcedores-do-corinthians-sao-maioria-na-parada-gay-de-sp-diz-datafolha.shtml#anc6025121

Me diz: qual a relevância de saber o time de futebol dos presentes em um evento que nada têm a ver com futebol? Com tantas outras pesquisas mais úteis que o Datafolha poderia conduzir na parada gay, por que escolher justo essa pauta?

Uma pauta como essa serve apenas para alimentar piadinhas homofóbicas velhas, bobas e sem graça, nas quais torcedores de um time acusam os torcedores de outro de serem gays — como se ser gay fosse uma coisa ruim, indesejável, inferior, jocosa. Que o jornal de maior circulação do país se preste a um papelzinho desses,  acionando o Datafolha para verificar se a piadinha procede, é uma vergonha.

É óbvio que:
a) Nem todo mundo que vai à parada gay é gay. Afinal, felizmente existem heteros não-babacas que não precisam afirmar sua heterosexualidade o tempo todo, que conseguem curtir a companhia de pessoas com outras orientações sexuais e, principalmente, que apoiam a luta LGBT por mais direitos.
b)  Existem gays e heteros torcendo para todos os times. E jogando em todos os times também. Também existem gays e heteros que não torcem para time nenhum.
c) Gostar de futebol não te faz mais homem.
d) Torcer para este ou aquele time também não te faz mais homem.
e) Gostar de mulher não te faz mais homem.
f) Ser hetero não te torna superior em nada.
g) Se você tira sarro de um amigo porque ele foi à parada ou acha engraçado insinuar que um amigo seu foi à parada, você é um idiota. E é homofóbico, SIM.

Obrigada.

Xuxa, Natascha e a babaquice nossa de cada dia

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Dizem que as redes sociais fazem parecer que a vida de todo mundo é perfeita (afinal, escolhemos apenas o melhor da gente para mostrar). Mas, olha, quando estoura uma polemiquinha, o efeito é o contrário: tenho a impressão de que há uma quantidade grande de pessoas com uma existência pra lá de miserável. 

Porque, veja bem. A Xuxa é mesmo uma figura meio estranha. Não há dúvidas de que o tempo dela já passou. Difícil se identificar com a aparente síndrome de Peter Pan, o sorriso forçado, a voz de tatibitate. Como simpatizar com alguém que diz ver duendes, chama caps lock de jeitinho e passeia pelo shopping com o cachorro dentro de um carrinho de bebê? Xuxa é daquelas celebridades decadentes que viram caricaturas de si mesmas. Mas, porém, contudo, todavia: por menos identificação que eu tenha com a Xuxa, tenho uma vida, né? Não vou perder meu tempo me preocupando, antipatizando ou vociferando contra ela. Como tenho uma vida pra viver, a Xuxa como pessoa é algo que me importa picas.

Então, esse mundaréu de gente com existências miseráveis, em vez de aproveitar a ocasião para debater a bola que foi levantada (no caso, o abuso sexual infantil, que é SIM uma problema muito disseminado*), passa a focar na Xuxa-como-pessoa. Algo que devia lhes importar picas. E aí começa o show de abobrinhas:

“Por que ela só foi falar disso agora?”
Desde quando denúncia de estupro tem prazo de validade? E por que deveria ter? Se existe um prazo de validade, depois de que idade não se pode falar mais nada? 25, 30, 40? Por que uma pessoa estuprada não pode contar o que lhe aconteceu depois de velha? Denunciar um estupro só tem valor se for para prender o estuprador?

Deixa eu falar um negocinho: diferentes pessoas lidam com diferentes situações de forma diferente. De repente, justamente por estar decadente, Xuxa só se sentiu confortável para falar disso publicamente agora. Ou só lida melhor com isso (a ponto de conseguir tocar no assunto) agora. Sei lá. Sei lá por que ela não quis contar isso antes. E sei lá por que ela resolveu contar isso em rede nacional. Os motivos da Xuxa são dela, e não nos concernem. Tô cagando mesmo. E, em estando a cagar, não vou julgar se é certo ou errado falar disso na televisão em vez de falar no divã. Aliás, nem sei se ela já falou disso no divã. E se ela decidiu no divã que seria bom falar na TV? As pessoas fazem coisas por motivos que são delas e atribuem significados (que são todos delas) ao que fazem.

As feministas da segunda onda tinham como lema a frase “o pessoal é político”. O objetivo era quebrar a dicotomia público x privado, encorajando as mulheres a contar o que lhes acontecia na esfera doméstica/privada/pessoal. Assim, elas percebiam que muitas de suas experiências não eram únicas, mas sim coletivas. Por isso é importante que as pessoas falem publicamente de estupro, violência doméstica, divisão do trabalho doméstico, etc etc. Para que vejam que são fenômenos sociais, e não algo que acontece apenas na casa delas. Na terceira onda feminista, o lema continua, principalmente na literatura, focada nas autobiografias. Durante a entrevista, Xuxa diz que resolveu contar do seu abuso exatamente com esse objetivo: para que as pessoas percebessem que o abuso infantil é comum, e que é preciso lutar contra ele. A Xuxa é feminista? Não, e também pouco me importa quem “merece” carteirinha do clubinho ou não. Só sei que a atitude dela está totalmente alinhada com esse raciocínio introduzido pelas feministas. E, por isso, acho totalmente válido se expor em rede nacional.

“Acho que ela está mentindo. Primeiro ela diz que não sabe quem foi, depois que foram o namorado da avó, um amigo do pai e um professor”
De novo, pouco me importa se é mentira ou não. Se a Xuxa mentiu, só ela sabe por que fez isso. O que importa é que o depoimento, verdadeiro ou não, chamou a atenção para a questão do abuso infantil. Por isso, Pedro Bó, o foco da discussão devia ser ESSE. Se ela mentiu ou não, e daí? Você nunca vai descobrir e ficar gritando aos quatro ventos (virtuais) que ela é uma vaca mentirosa não ajuda em nada.

“Ela só está fazendo isso pra se promover! Ou pra dar audiência pro Fantástico!”
É lógico que um programa de televisão que coloca gente famosa pra contar coisas pessoais, com uma musiquinha de fundo emotiva e close nos olhos, quer mais é alavancar audiência. PARABÉNS POR DESCOBRIR O BRASIL. Está mais do que claro o que o Fantástico, ou a Globo, ganham com isso.

Porém, pensa com a tia: o que a Xuxa ganha se colocando no lugar de vítima de um crime horroroso? Desculpaí, mas não é nada cool ser vítima de estupro/pedofilia. Não é um rótulo que eu acho que as pessoas *queiram*. Tipo: “Olá, prazer, sou vítima de estupro. Tudo bem?”.

Vocês acham mesmo que a Xuxa vai conseguir, sei lá, um horário melhor pro seu programa na Globo porque se disse vítima de estupro? Ou que as crianças vão começar a pedir loucamente para os pais comprarem seus discos? A única coisa que ela ganha é uma atenção momentânea e NEGATIVA. Não consigo ver nenhum ganho profissional.

Negativa porque a primeira coisa que pessoas babacas fazem quando o assunto é estupro é começar a julgar a mulher (para, assim, passar a mão na cabeça do estuprador). Tipo: “Mas será que foi estuprada mesmo?”, “Será que ela não pediu?”, “Será que ela não tá querendo queimar o cara?”. Começa-se todo um escrutínio do comportamento da mulher. Afinal, sabe como é, só são estupradas mesmo as santinhas. As “putas” nunca o são: as “putas” pedem, as “putas” querem. E tudo o mais que a gente diz na Marcha das Vadias. Ao dizer-se vítima de estupro no Fantástico, Xuxa submete-se a esse tipo de escrutínio abjeto e incômodo, que infelizmente é inevitável na nossa sociedade tão machista. E aí eu pergunto: o que alguém ganha em se colocar na berlinda assim? Cês acham mesmo que isso aí é vantagem?

“Uau, héin. Belo trauma. A pessoa é abusada quando criança e depois faz um filme erótico com um menino. Hipócrita!”

A minha aposta (só aposta mesmo) é que a maioria das pessoas que falam isso nunca assistiram a “Amor, Estranho Amor”. Eu nunca assiti, não faço a menor ideia do enredo. A única coisa que sei, de ouvir falar, é que a Xuxa contracena nua com um garoto. Não sou medida de nada, mas enfim, isso não importa. O que importa mesmo é a escrotidão das pessoas em querer ditar como uma vítima de estupro deve ser e agir. As pessoas acham que uma vítima de estupro não pode ter sexualidade depois. Não pode usar roupa provocante, não pode fazer filme erótico, não pode tirar foto pelada, não pode ter namorado e vida sexual ativa, nada. Tem que ser eternamente traumatizada e travada, eternamente marcada pela violação.

De novo: diferentes pessoas lidam de forma diferente com experiências diferentes e dão significados diferentes para tais experiências. Existem vítimas de estupro que também estupram, vítimas de tráfico de pessoas que depois ajudam seus algozes a traficar. Nem toda vítima de estupro fica travada sexualmente para o resto da vida — e ainda bem que não é assim.

Existe um texto que me fizeram ler aqui no mestrado, chama “Wounded Attachments”, da Wendy Brown. Mudou tanto a minha vida que eu já perdi a conta de quantas vezes o reli. Basicamente, Wendy critica o discurso feminista mais mainstream, que usa o histórico de opressão contra as mulheres para justificar a existência do movimento. E aí ela diz que não quer um movimento que fique apenas batendo na tecla de que a opressão existe, um movimento com uma concepção negativa de liberdade (“quero ser liberta de”), mas sim um movimento com uma concepção positiva (“quero ser livre para”). Isso não é negar que a opressão exista, mas sim não deixar que a opressão defina quem você é. Porque assim você é uma vítima eterna, definida pelo que fazem a você. E não pelo que você faz ou pode fazer. E nossa, eu achei isso o máximo. Então, taí: existem vítimas de estupro que  encaram isso como algo que as marca para o resto da vida, algo que prejudica sua sexualidade, algo que faz parte do que elas são. E oquei, acontece (longe de mim, pelo amor de deus, dizer que essa forma de lidar com as coisas é pior). A questão é que essa não é a única maneira possível de lidar com isso. Existem também vítimas que não definem sua vida como antes do estupro e depois do estupro. O foda das pessoas é que elas estabelecem a primeira reação como padrão. É assim que uma vítima de verdade  deve ser e se portar. E se não for assim, ou ela está mentindo ou há algo de errado com ela.

Recomendo muito “3096 dias”, o livro de Natascha Kampusch, a austríaca que foi sequestrada quando criança e só conseguiu se libertar aos 18 anos. Ela passa boa parte do livro refletindo exatamente sobre isso. Como se recusou a classificar seu sequestrador como um simples “monstro” (preferindo falar dele como um ser humano sádico e perturbado, mas ainda assim um ser humano, com qualidades e defeitos) e também se recusou a falar de si como uma pobrezinha eternamente marcada, Natascha logo começou a ser atacada pela imprensa, que a acusou de ter síndrome de estocolmo. A Eliane Brum, que eu amo de paixão, tem uma ótima resenha do livro (LEIÃO). Aí a Natascha vai lá e diz: síndrome de estocolmo é o seu fiofó, a sociedade é que se sente incomodada com uma narrativa que fuja ao padrão do monstro e da coitadinha. Afinal uma narrativa com mais nuances nos obriga a ver que fabricamos os monstros, queeles são parte da sociedade, e que as mulheres não são apenas coitadinhas, elas também podem ser fortes. Natascha se recusa a enxergar-se como vítima o tempo todo, em sua relação com o sequestrador. Ela reconhece que tinha, sim, uma margem de autonomia para conseguir o que queria no dia-a-dia. E essa é uma tecla em que têm batido a Wendy Brown, a Elizabeth Grozs e outras feministas que tenho lido: só porque algumas pessoas têm menos poder, não significa que elas não tenham poder nenhum. Foucault na veia, etc.

Então, no fim, é isso: acho que as pessoas definem essa norma de comportamento pra vítima justamente pelo significado social que tem o estupro. O estupro é um instrumento da sociedade patriarcal pra subjugar as mulheres. Logo, uma vítima que não demonstre ser eternamente marcada por isso, que não fique eternamente traumatizada, que não se sinta eternamente subjugada, uma vítima que se reergue e vive sua sexualidade mesmo assim, ela é uma ameaça à ordem mesma que o estupro visa a reforçar. Porque se a vítima toca a bola pra frente e vive, então o estupro parece inócuo como ferramenta. É por isso que existe essa patrulha. Faço sentido?

*Meu primeiro estágio em jornalismo foi numa revista para grávidas e pais de crianças pequenas. Por isso, criei alertas no Google com as palavras “criança” e “bebê”. Assim, achei que pegaria boa parte das matérias dos nossos concorrentes (coisas inofensivas, como tirar o bebê das fraldas, melhores marcas de chupeta e por aí vai). Ledo engano: o que eu recebia todo dia eram dezenas de notícias sobre bebês e crianças molestados, violentados, espancados e mortos Brasil afora. Uma notícia mais escabrosa que a outra. Desde então, recomendo pra todo mundo fazer esse alerta, só para se ter uma idéia de como o abuso contra crianças é endêmico.

PS –– Aliás, a mesma gente com existência miserável ficou falando mal da Carolina Dieckmann, né. “Essa vaca fica de biscatagem e agora quer fechar o Google?”. Ou:  “Quem mandou tirar foto pelada? Ainda mais sabendo que é famosa?”. Juro que não consigo entender essa lógica de que, só porque a pessoa é famosa, não pode mais brincar de tirar foto pelada DENTRO DE CASA e mantê-las no computador DE CASA. Entendo menos ainda quem acha que errado não é quem roubou as fotos, mas ela por “fazer sacanagem”.  Quem nunca tirou uma fotinho dessas na vida? Vida sexual pobre a de vocês, héin.

Também não vejo nada de errado em pedir ao Google que retire das buscas fotos que foram obtidas de forma ilícita. Ela não quer tirar a foto do seu HD. Quer apenas que o ladrão seja punido e que o Google cumpra suas políticas — razoável, não? Mas sabe como é, parece que pra esse povo, mulher que não é “santa” tem mais é que se foder. Fez sexo ou algo de cunho sexual? Então seja roubada e não reclame.  A Panicat tem mais é que se foder, Carolina tem mais é que se foder, Geisy tem mais é que se foder, Xuxa tem mais é que se foder…

[update] Amei o texto da Cristiane Segatto, da Época (embora discorde que a entrevista foi jornalismo de primeira): “[à época do filme] Xuxa tinha 16 anos. O menino, 12. Quem abusou de quem? Eram duas crianças abusadas pelo mercado, pela família, pela sociedade, pelo sistema, pelo que queiram. Mas é sempre mais fácil culpar a mulher, não é mesmo?”  Taí. Se tem algo que me incomoda nesses comentários todos é que eles assumem que a Xuxa foi a única a corromper o menino. E o roteirista, o diretor, os câmeras, os pais do menino (que certamente autorizaram sua participação no filme)? Todos eles abusaram do garoto também. Mas, como bem reconhece a Cristiane, é sempre, sempre mais fácil jogar a culpa na mulher.

meus dois tostões sobre a Panicat

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Fiquei sabendo (santo Facebook, só que não) que o Pânico obrigou uma de suas assistentes de palco a raspar todo o cabelo no ar. Para mim, a humilhação frequente de mulheres nesse programa é um dos maiores acintes da TV brasileira. Acho absurdo que isso continue acontecendo impunemente.

Mas mais triste mesmo é ver que as pessoas comentando o caso colocam a culpa toda sobre a moça. “Ai, como é descerebrada. Ai, como é fútil. Ai, como é burra. Ai, como é que ela se submete?”. É claro que, se mulher nenhuma se submetesse ou sentisse que precisa se submeter a tais coisas, o mundo seria um lugar bem melhor. E eu sou feminista justamente porque acredito que todo mundo tem, sim, margem para reação e resistência. A Panicat precisa ser Panicat para ganhar a vida? Não. Podia estar em qualquer outro emprego. Supondo-se que eu tivesse uma bunda do tamanho necessário para se candidatar a tal posto, por mais desesperada por grana que eu estivesse, jamais me candidataria. Mas né? Todo mundo se vende do jeito que dá. Eu faço matérias pseudojornalísticas que não me realizam e que muitas vezes tratam o leitor como retardado mental. É uma espécie de prostituição também. Em tempo: não estou dizendo que as Panicats são prostitutas, como muitos sugerem. Eu não sei se são, e também não é da minha conta. Apenas estou dizendo que todo trabalho, dentro de um sistema capitalista, tem seu quê de prostituição. Tem seu quê de humilhação. E que a opção de nunca, jamais, em tempo algum ganhar a vida mostrando a bunda, porque isso ultrapassa meus limites, é algo meu, só meu. O limite de outras pessoas é outro. E de repente, tem pessoas que jamais fariam o que eu faço, mas virariam Panicats.

Meu texto tá confuso, eu sei. Mas o que queria dizer é isso: bom seria se mulher nenhuma se submetesse a ser humilhada em quadros de TV escatológicos por um bando de homens babacas que as tratam como objeto sexual e alvo de chacota, nada mais. Mas a realidade não é essa. A realidade é que vivemos num mundo que também diz que ser essa gostosa é legal — afinal, a Panicat é famosa (ou subfamosa) e vai ganhar mais grana fazendo isso do que em qualquer outro emprego que ela teria com a mesma escolaridade.

(Aliás, tem um vídeo bacana da Sasha Grey, a atriz pornô, para a campanha pela equiparidade salarial entre os gêneros. Tô com preguiça de buscar e linkar, busca você no You Tube. Ela diz que *escolheu* abandonar os estudos para virar atriz pornô. Porém, que tem consciência de que este é o único posto em que uma mulher consegue ganhar mais do que os homens. Semestre passado tive uma aula só sobre prostituição. E uma das coisas que discutimos é isso. Que o estereótipo da prostituta é a mulher pobre ou viciada, sem opção nenhuma. E que, embora essas mulheres existam, é preciso considerar que um número significativo das prostitutas na verdade é de classe média. E que muitas mulheres com formação superior viram sex workers — categoria que inclui não só a prostituição, mas modelos, atrizes, dançarinas, strippers etc — porque isso paga a elas muito mais do que os outros empregos. É o único emprego que permite a elas ganhar a mesma coisa que homens em posições como TI e engenharia, por exemplo. Então veja como tudo está relacionado: os estereótipos de gênero fazem com que mulheres e homens sejam estimulados, desde a escola, a se interessarem por áreas diferentes. Isso influencia as suas escolhas acadêmicas: as mulheres se concentram nas carreiras de humanas, artes, educação, cuidado com idosos e crianças, enquanto os homens vão para exatas e tecnologia. As áreas femininas são menos valorizadas socialmente e, portanto, menos pagas pelo mercado. Logo, enquanto um cara de trinta e poucos formado em TI e trabalhando no Vale do Silício ganha X, a única chance de uma mulher formada em… Tchans, que tal sociologia?… ganhar a mesma coisa na mesma idade é indo pro sex work. No entanto, vivemos ambos, homens e mulheres, no mesmo mundo. Um mundo que diz que você pre-ci-sa ter isso, isso e aquilo. Consumir isso, isso e aquilo. As pessoas querem consumir. Constróem suas identidades com base no que consomem. E aí? A mulher que quiser ter seu IPhone, seu apartamento com móveis da Ikea, seu isso, seu aquilo, como vai pagar? Vira prostituta. E o cara do Vale do Silício, que tem dinheiro de sobra, vai classificar a prostituição ou o strip club como um gasto com lazer. E nisso a indústria se consolida. Enfim)

Toda essa digressão pra dizer uma coisa: Ô, MEU FILHO, O CENTRO DA SUA CRÍTICA NÃO DEVE SER A PANICAT. Como ela é burra, descerebrada, passiva, como ela ganha dinheiro mostrando a bunda, blablabla. Quando você concentra a sua crítica na figura da Panicat, e não nos responsáveis pelo programa, você também está sendo misógino. MUITO MISÓGINO. A Panicat é vítima de misoginia duas vezes: a de seus chefes e a sua.

Se você acha que é mais vergonhoso ser a Panicat do que ser o produtor, o patrocinador ou o apresentador de um programa de TV desses (ou seja: os criadores e executores da humilhação), então você está se baseando nas mesmas idéias que justificam a existência de quadros como esse: de que mulher burra merece ser humilhada mesmo, quem mandou estar ali, etc. Se as mulheres não se submetessem a posições esdrúxulas, não existiriam Panicats, certamente. Mas, antes de tudo, se não houvesse uma sociedade machista em que homens controlam empresas de mídia e criam programas em que vale humilhar mulheres por audiência, e se não houvesse uma audiência que acha que mulher gostosa e burra tem mais é que se foder, nada disso existiria também. Então bóra focar a nossa crítica na parte mais ativa da equação?