Bridesmaids: eu curti

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ATENÇÃO: ALÉM DE CONTER SPOILERS, ACHO QUE ESSE POST SÓ DÁ PARA ENTENDER SE VOCÊ VIR O FILME ANTES.

Eu curti Bridesmaids. Por quê:

1) Pelo que o filme representa na indústria hollywoodiana. Uma comédia só com mulheres (quem disse que mulher não é engraçada?), com tema centrado em amizade e experiências femininas. E ainda atingindo recordes de bilheteria. Não é a melhor comédia do mundo (e deve-se sempre lembrar o fato de incluir mulher não quer dizer que as mensagens serão contra-hegemônicas). Mas o filme tem sua importância, e temos de reconhecê-la.

2) Tem a personagem da Melissa não sei das quantas, aquela que faz Mike and Molly. Ela é algo. A feminilidade dela não é nada tradicional. Ela é gorda, desbocada, arrota, caga na pia, desce a porrada. Mas não é lésbica, como seria o clichêzão. Ela é hetero e dá em cima de um cara no avião. E, embora pareça a personagem mais seca e fria do filme, é dela uma das cenas mais fofas. Quando todo mundo vira as costas à Annie, ela a visita. Aí a Annie começa a reclamar de tudo o que está dando errado em sua vida — e, num dado momento, diz que não tem amigos. “Como assim você tá reclamando que não tem amigos, quando eu acabo de vir à sua casa só para perguntar como você está?”, responde a outra. Também nessa cena, ela revela que é extremamente inteligente e bem-sucedida. Em vez de apenas a weirdo do filme, como seria o clichêzão.

3)Porque esta é uma história de mulheres tendo de lidar com a mensagem de que casamento/romance é solução de vida, o objetivo final para toda mulher. Todas crescemos com essa mensagem. Espere o príncipe encantado e blablabla. E aí temos de amadurecer e desconstruir isso aí. E é um processo complicado, esse de desconstrução. Repare que *todas* as casadas do filme são infelizes. A rica chatona que parece ter a vida perfeita se sente extremamente sozinha. E é por isso que tenta *comprar* a amizade da noiva. A loira (sorry, eu sempre esqueço os nomes das pessoas nos filmes) não faz sexo de qualidade e tem filhos mal agradecidos.

Eu amei a cena do avião, em que a loira e a ruiva (que está prestes a se casar virgem e olha para a loira como se a vida dela fosse tudo) se beijam. Adorei que tem uma cena dessas num filme todo centrado na heterossexualidade. Porque, né. Tinha esse desejo aí nelas. E aí o filme mostra que de repente o caminho pode ser esse. É uma pena que depois essas duas personagens sumam na trama. Seria bacana se elas pudessem evoluir. E aí, o que a loira vai fazer com os filhos malcriados? Como vai recuperar sua vida sexual? E a ruiva? Vai se permitir ter outras experiências?

4) A Annie tá tentando desconstruir isso tudo também. Mas a Annie é a solteira. A Annie é a forever alone. A Annie é moça daquela música da Lilly Allen, “22”: “It’s sad but it’s true, how society says her life is already over. Until the man of her dreams comes along, picks her up and puts her over his shoulder”. A Annie transa com caras babacas, só para se sentir desejada. E fica esperando que eles se tornem príncipes encantados. Quem nunca? Eu já. A Annie é também o sonho americano que deu errado (faliu com o negócio próprio e está endividada).

Enfim, a Annie chegou aos 30 e não tem nada do que a sociedade diz que ela deveria ter. Enquanto isso, as amigas estão conquistando essas coisas. Uma bocó lá no Feministing disse: “Annie não me representa porque ela é invejosa, insegura e incapaz de ficar feliz pelos outros”. E né? Só posso lamentar o quanto a moça missed the point. O que vemos em Bridesmaids é a evolução de uma personagem. Nada mais humano do que sentir uma ponta de inveja dos outros, quando a sua vida está totalmente na merda. Ela se sente, sim, feliz pela amiga, mas também gostaria que as coisas dessem certo para ela. Ninguém é totalmente altruísta. E aí a gente vai acompanhando a Annie amadurecer, aprender a ter mais jogo de cintura, deixar de surtar e adquirir forças para seguir em frente.

Às vezes fico com a impressão de que algumas feministas só ficarão satisfeitas se a personagem feminina for absolutamente perfeita e empoderada. Só é positivo o retrato de uma mulher bem resolvida, sem inseguranças e que não dependa de um homem (emocional ou financeiramente) de forma alguma. Essa personagem só pode se relacionar com outras mulheres de forma cooperativa. Não pode desgostar ou competir com ninguém. Então, né. A questão é que essa mulher *não existe*. Ela é a mulher feminista ideal, de um mundo feminista ideal que infelizmente também não existe. E, não existindo, ficaria difícil para o público se identificar com uma personagem assim. Gente sem insegurança nenhuma, completamente auto-suficiente, hello, não há.

(O pior desse artigo do Feministing é dizer que o filme é “groundbreaking”, mas ao mesmo tempo “regressive” — como se isso fosse descobrir a América. Acho isso de uma burrice tremenda, porque nada nessa vida é 100% progressista ou 100% conservador. Toda produção cultural carrega em si os sinais do tempo em que foi produzida. A coisa mais burra que alguém pode se perguntar é: “esse comercial/filme/livro/clipe é feminista?”. Porque, ora, dá para fazer uma leitura centrada em gênero em relação a tudo. Não existe nada produzido fora desse mundo, que é um mundo estruturado em gêneros. E mesmo algo que já comece com esse objetivo, “vamos ser feministas”, sempre correrá o risco de carregar em si um pouco de conservadorismo. Se não em relação a gênero, em relação a classe, raça, sexualidade, seja lá o que for. Então, se a moça do Feministing tá esperando algo que seja apenas “groundbreaking”, nada mais, acho que ela vai esperar sentada o resto da vida para ficar satisfeita com qualquer produto pop)

Li no Feministing também a mulherada metendo o pau na protagonista de Girl with the Dragon Tattoo (no Brasil, acho que saiu como “homens que odiavam as mulheres”, algo assim, tô com preguiça de googlar). Veja você que temos uma personagem com uma sexualidade fluida e livre, que se vinga de homens misóginos (o seu estuprador e o de outras mulheres), cujas atitudes não se encaixam em padrões tradicionais de feminilidade. E mesmo assim teve feminista que reclamou. Porque ela transa com o Daniel Craig e fica meio apaixonadinha. Porque em alguns pontos do filme ela parece insegura. Porque o filme fala de misoginia e estupro (como se o simples fato de ter a misoginia e o estupro como temas implique automaticamente uma defesa dos mesmos). Assim fica difícil, né.

Agora, os problemas (de Bridesmaids, não de Girl with the dragon tattoo):

1) A cena do restaurante brasileiro. Fora o fato do garçom falar ESPANHOL (oi, cadê pesquisa?), por que apenas é o restaurante do Outro que dá intoxicação alimentar nos filmes americanos? Ninguém nunca passa mal comendo comida local, não? Achei a cena desnecessária e sem graça.

2)Mesmo este filme, que tem uma proposta mais bacana, acaba escorregando para o conto de fada. O final “feliz” da Annie é encontrar um homem bonzinho que goste dela pelo que ela é. Enfim, o príncipe chega. E né? Que saco. A mulher continua endividada, desempregada e morando na casa da mãe. Nada disso é resolvido. Mas ela arranja um namorado, então tá ótimo, podemos acabar o filme. Porque o maior dos problemas dela era esse. *facepalm*

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