Recadinho pra Talyta

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(to usando um teclado sem acentos, perdoem)

Interrompendo a programacao normal do blog pra fazer alguns comentarios sobre o presente de grego que a Folha de S. Paulo deu as suas leitoras no dia internacional da mulher:

1) Alguem avisa a Talyta que o feminismo nao se resumiu nem se resume apenas a demanda de insercao no mercado de trabalho.

2) Basicamente, a Talyta diz que as mulheres adentraram o mercado de trabalho porque o mercado assim impos, e nao porque houve um movimento politico exigindo isso. Logo, ela nao deve nada ao feminismo. No texto, a Talyta se chama de “intelectual”. Quem sou para contestar como as pessoas querem ser chamadas, nao eh mesmo? Mas, olha soh, achar que um fato historico tao significativo quanto a (re)insercao das mulheres (de classe media, ja que para as pobres ficar em casa nunca foi opcao) no mercado de trabalho tenha ocorrido devido a um unico fator, e nao a combinacao de fatores diversos… Tai a coisa menos “intelectual” que alguem pode fazer.

3) “Como mulher e intelectual, posso afirmar sem pestanejar: nunca precisei lutar para ser ouvida”. Voces nao adoram quando alguem super privilegiado fala como se TODO MUNDO tivesse a mesma experiencia leite com pera que ele? Tipassim: “como isso nao acontece comigo, entao nao acontece com mais ninguem”.

Talyta, eu tambem raramente preciso lutar para ser ouvida no meu dia a dia. Nasci no Brasil, um pais sem muitos conflitos, numa familia de classe media, tive acesso a educacao de qualidade, empregos bacanas, e agora to estudando na Zoropa. Mas existem marromeno 3,5 bilhoes de outras mulheres no mundo, sabe. Muitas delas precisam, sim, lutar para serem ouvidas, para terem sua integridade fisica e emocional preservada, etc. Fica a dica. O mundo nao se resume ao seu umbigo.

4) Voce nao precisa lutar para ser ouvida hoje, mas e no passado, era assim? As mulheres tinham espaco para escrever no jornal, como vc esta fazendo agora? Ou voce acha que a antes inimaginavel possibilidade de escrever num jornal tambem eh consequencia apenas da inflacao entreguerras?

5) O mais engracado eh que a Talyta faz um mimimi danado, dizendo “ai, nao pode nao ser feminista. Nao pode criticar o movimento senao voce eh tachada de anti”. Entao, gata, nao sei o que vc quer. Sim, voce pode nao ser feminista. Tanto que esta declarando livremente que nao o eh. Ninguem esta botando uma arma na sua cabeca para que voce o seja. Sim, voce pode criticar o movimento. Tanto que esta fazendo isso no jornal de maior circulacao do pais. Mas, se vc nega a importancia da propria EXISTENCIA do movimento, se vc escreveu um texto inteiro dizendo que as conquistas atribuidas a ele na verdade nada tem a ver com ele, se diz que nada deve a ele, como mais podemos te classificar a nao ser como uma pessoa contra o movimento? Se vc eh contra o movimento, entao vc eh contra o movimento ue. Como mais classificar o seu argumento? Abrace-o e assuma-o, gata. Ou, em portugues claro, se nao sabe brincar, nao desce  pro play.

PS — eu sei que depois do ditabranda, da ficha falsa da Dilma e de tantas outras delicinhas, nao se pode esperar mais nada da Folha. Mas nao custa dizer, neh. Que artigo *ruim*. Mal escrito, mal argumentado, sem nenhuma perspectiva historica. Como eh que publicam um negocio desses? Cade menino criterio?

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4 responses »

  1. Você mandou cópia pra ‘intelectual’ ou ‘filósofa’? Ou pra ombuswoman da Folha?
    Devia… Agora as ignaras discípulas do Pondé tem espaço na página 3!

    parabéns pelos comentários no recadito… não tenho mais idade, nem senso de humor pra aturar a Folha de São Paulo…estou aguardando vencer minha assinatura no dia 17 e vou comemorar!

  2. E engraçado que pra ela a entrada da mulher no mercado de trabalho não se deve ao feminismo, mas as consequências negativas disso são culpa do feminismo.”O ponto da discussão é: em que medida a consequência do feminismo, para a mulher contemporânea, foi o estrangulamento da liberdade de escolha?” Oi?!?

  3. Quero dizer, se as mulheres entraram no mundo do trabalho porque o mercado impôs então vai culpar o mercado pelo fato de as mulheres não poderem escolher não trabalhar hoje e não o feminismo.

  4. Excelente, Marjorie! Espero que a moça filósofa e intelectual leia seu recado… Afinal, aprender a aprender é fundamental e nunca é tarde… Na carta que mandei à OmbudsWoman, afirmei:
    “Tenho a humildade de dizer, senhora OmbusWoman, que jamais li Simone de Beauvoir ou qualquer texto de qualquer autora que se possa denominar de “feminista clássica”. Mas sou uma mulher nascida na periferia (onde vivi até meus 30 anos), filha de mecânico e dona de casa, migrantes nordestinos, formada na escola pública. Sou uma das milhões de mulheres brasileiras que assinaria o artigo publicado no dia 7/3 no Tendências & Debates, “Nós, mulheres da periferia”. E, nessa condição, sei que não é preciso ter lido nenhuma feminista, ter queimado o próprio sutiã ou se autoclassificar como desse ou daquele ramo do feminismo para compreender e reconhecer, ainda que intuitivamente, o legado positivo que esse movimento vivo tem sobre a vida de todas as mulheres brasileiras e dos países ocidentais”.
    Falando nisso, se tiver oportunidade, leia o artigo que a mesma Folha publicou no dia 7/3, no mesmo Tendências. De se orgulhar!

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