Monthly Archives: Abril 2012

meus dois tostões sobre a Panicat

Padrão

Fiquei sabendo (santo Facebook, só que não) que o Pânico obrigou uma de suas assistentes de palco a raspar todo o cabelo no ar. Para mim, a humilhação frequente de mulheres nesse programa é um dos maiores acintes da TV brasileira. Acho absurdo que isso continue acontecendo impunemente.

Mas mais triste mesmo é ver que as pessoas comentando o caso colocam a culpa toda sobre a moça. “Ai, como é descerebrada. Ai, como é fútil. Ai, como é burra. Ai, como é que ela se submete?”. É claro que, se mulher nenhuma se submetesse ou sentisse que precisa se submeter a tais coisas, o mundo seria um lugar bem melhor. E eu sou feminista justamente porque acredito que todo mundo tem, sim, margem para reação e resistência. A Panicat precisa ser Panicat para ganhar a vida? Não. Podia estar em qualquer outro emprego. Supondo-se que eu tivesse uma bunda do tamanho necessário para se candidatar a tal posto, por mais desesperada por grana que eu estivesse, jamais me candidataria. Mas né? Todo mundo se vende do jeito que dá. Eu faço matérias pseudojornalísticas que não me realizam e que muitas vezes tratam o leitor como retardado mental. É uma espécie de prostituição também. Em tempo: não estou dizendo que as Panicats são prostitutas, como muitos sugerem. Eu não sei se são, e também não é da minha conta. Apenas estou dizendo que todo trabalho, dentro de um sistema capitalista, tem seu quê de prostituição. Tem seu quê de humilhação. E que a opção de nunca, jamais, em tempo algum ganhar a vida mostrando a bunda, porque isso ultrapassa meus limites, é algo meu, só meu. O limite de outras pessoas é outro. E de repente, tem pessoas que jamais fariam o que eu faço, mas virariam Panicats.

Meu texto tá confuso, eu sei. Mas o que queria dizer é isso: bom seria se mulher nenhuma se submetesse a ser humilhada em quadros de TV escatológicos por um bando de homens babacas que as tratam como objeto sexual e alvo de chacota, nada mais. Mas a realidade não é essa. A realidade é que vivemos num mundo que também diz que ser essa gostosa é legal — afinal, a Panicat é famosa (ou subfamosa) e vai ganhar mais grana fazendo isso do que em qualquer outro emprego que ela teria com a mesma escolaridade.

(Aliás, tem um vídeo bacana da Sasha Grey, a atriz pornô, para a campanha pela equiparidade salarial entre os gêneros. Tô com preguiça de buscar e linkar, busca você no You Tube. Ela diz que *escolheu* abandonar os estudos para virar atriz pornô. Porém, que tem consciência de que este é o único posto em que uma mulher consegue ganhar mais do que os homens. Semestre passado tive uma aula só sobre prostituição. E uma das coisas que discutimos é isso. Que o estereótipo da prostituta é a mulher pobre ou viciada, sem opção nenhuma. E que, embora essas mulheres existam, é preciso considerar que um número significativo das prostitutas na verdade é de classe média. E que muitas mulheres com formação superior viram sex workers — categoria que inclui não só a prostituição, mas modelos, atrizes, dançarinas, strippers etc — porque isso paga a elas muito mais do que os outros empregos. É o único emprego que permite a elas ganhar a mesma coisa que homens em posições como TI e engenharia, por exemplo. Então veja como tudo está relacionado: os estereótipos de gênero fazem com que mulheres e homens sejam estimulados, desde a escola, a se interessarem por áreas diferentes. Isso influencia as suas escolhas acadêmicas: as mulheres se concentram nas carreiras de humanas, artes, educação, cuidado com idosos e crianças, enquanto os homens vão para exatas e tecnologia. As áreas femininas são menos valorizadas socialmente e, portanto, menos pagas pelo mercado. Logo, enquanto um cara de trinta e poucos formado em TI e trabalhando no Vale do Silício ganha X, a única chance de uma mulher formada em… Tchans, que tal sociologia?… ganhar a mesma coisa na mesma idade é indo pro sex work. No entanto, vivemos ambos, homens e mulheres, no mesmo mundo. Um mundo que diz que você pre-ci-sa ter isso, isso e aquilo. Consumir isso, isso e aquilo. As pessoas querem consumir. Constróem suas identidades com base no que consomem. E aí? A mulher que quiser ter seu IPhone, seu apartamento com móveis da Ikea, seu isso, seu aquilo, como vai pagar? Vira prostituta. E o cara do Vale do Silício, que tem dinheiro de sobra, vai classificar a prostituição ou o strip club como um gasto com lazer. E nisso a indústria se consolida. Enfim)

Toda essa digressão pra dizer uma coisa: Ô, MEU FILHO, O CENTRO DA SUA CRÍTICA NÃO DEVE SER A PANICAT. Como ela é burra, descerebrada, passiva, como ela ganha dinheiro mostrando a bunda, blablabla. Quando você concentra a sua crítica na figura da Panicat, e não nos responsáveis pelo programa, você também está sendo misógino. MUITO MISÓGINO. A Panicat é vítima de misoginia duas vezes: a de seus chefes e a sua.

Se você acha que é mais vergonhoso ser a Panicat do que ser o produtor, o patrocinador ou o apresentador de um programa de TV desses (ou seja: os criadores e executores da humilhação), então você está se baseando nas mesmas idéias que justificam a existência de quadros como esse: de que mulher burra merece ser humilhada mesmo, quem mandou estar ali, etc. Se as mulheres não se submetessem a posições esdrúxulas, não existiriam Panicats, certamente. Mas, antes de tudo, se não houvesse uma sociedade machista em que homens controlam empresas de mídia e criam programas em que vale humilhar mulheres por audiência, e se não houvesse uma audiência que acha que mulher gostosa e burra tem mais é que se foder, nada disso existiria também. Então bóra focar a nossa crítica na parte mais ativa da equação?