meus dois tostões sobre a Panicat

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Fiquei sabendo (santo Facebook, só que não) que o Pânico obrigou uma de suas assistentes de palco a raspar todo o cabelo no ar. Para mim, a humilhação frequente de mulheres nesse programa é um dos maiores acintes da TV brasileira. Acho absurdo que isso continue acontecendo impunemente.

Mas mais triste mesmo é ver que as pessoas comentando o caso colocam a culpa toda sobre a moça. “Ai, como é descerebrada. Ai, como é fútil. Ai, como é burra. Ai, como é que ela se submete?”. É claro que, se mulher nenhuma se submetesse ou sentisse que precisa se submeter a tais coisas, o mundo seria um lugar bem melhor. E eu sou feminista justamente porque acredito que todo mundo tem, sim, margem para reação e resistência. A Panicat precisa ser Panicat para ganhar a vida? Não. Podia estar em qualquer outro emprego. Supondo-se que eu tivesse uma bunda do tamanho necessário para se candidatar a tal posto, por mais desesperada por grana que eu estivesse, jamais me candidataria. Mas né? Todo mundo se vende do jeito que dá. Eu faço matérias pseudojornalísticas que não me realizam e que muitas vezes tratam o leitor como retardado mental. É uma espécie de prostituição também. Em tempo: não estou dizendo que as Panicats são prostitutas, como muitos sugerem. Eu não sei se são, e também não é da minha conta. Apenas estou dizendo que todo trabalho, dentro de um sistema capitalista, tem seu quê de prostituição. Tem seu quê de humilhação. E que a opção de nunca, jamais, em tempo algum ganhar a vida mostrando a bunda, porque isso ultrapassa meus limites, é algo meu, só meu. O limite de outras pessoas é outro. E de repente, tem pessoas que jamais fariam o que eu faço, mas virariam Panicats.

Meu texto tá confuso, eu sei. Mas o que queria dizer é isso: bom seria se mulher nenhuma se submetesse a ser humilhada em quadros de TV escatológicos por um bando de homens babacas que as tratam como objeto sexual e alvo de chacota, nada mais. Mas a realidade não é essa. A realidade é que vivemos num mundo que também diz que ser essa gostosa é legal — afinal, a Panicat é famosa (ou subfamosa) e vai ganhar mais grana fazendo isso do que em qualquer outro emprego que ela teria com a mesma escolaridade.

(Aliás, tem um vídeo bacana da Sasha Grey, a atriz pornô, para a campanha pela equiparidade salarial entre os gêneros. Tô com preguiça de buscar e linkar, busca você no You Tube. Ela diz que *escolheu* abandonar os estudos para virar atriz pornô. Porém, que tem consciência de que este é o único posto em que uma mulher consegue ganhar mais do que os homens. Semestre passado tive uma aula só sobre prostituição. E uma das coisas que discutimos é isso. Que o estereótipo da prostituta é a mulher pobre ou viciada, sem opção nenhuma. E que, embora essas mulheres existam, é preciso considerar que um número significativo das prostitutas na verdade é de classe média. E que muitas mulheres com formação superior viram sex workers — categoria que inclui não só a prostituição, mas modelos, atrizes, dançarinas, strippers etc — porque isso paga a elas muito mais do que os outros empregos. É o único emprego que permite a elas ganhar a mesma coisa que homens em posições como TI e engenharia, por exemplo. Então veja como tudo está relacionado: os estereótipos de gênero fazem com que mulheres e homens sejam estimulados, desde a escola, a se interessarem por áreas diferentes. Isso influencia as suas escolhas acadêmicas: as mulheres se concentram nas carreiras de humanas, artes, educação, cuidado com idosos e crianças, enquanto os homens vão para exatas e tecnologia. As áreas femininas são menos valorizadas socialmente e, portanto, menos pagas pelo mercado. Logo, enquanto um cara de trinta e poucos formado em TI e trabalhando no Vale do Silício ganha X, a única chance de uma mulher formada em… Tchans, que tal sociologia?… ganhar a mesma coisa na mesma idade é indo pro sex work. No entanto, vivemos ambos, homens e mulheres, no mesmo mundo. Um mundo que diz que você pre-ci-sa ter isso, isso e aquilo. Consumir isso, isso e aquilo. As pessoas querem consumir. Constróem suas identidades com base no que consomem. E aí? A mulher que quiser ter seu IPhone, seu apartamento com móveis da Ikea, seu isso, seu aquilo, como vai pagar? Vira prostituta. E o cara do Vale do Silício, que tem dinheiro de sobra, vai classificar a prostituição ou o strip club como um gasto com lazer. E nisso a indústria se consolida. Enfim)

Toda essa digressão pra dizer uma coisa: Ô, MEU FILHO, O CENTRO DA SUA CRÍTICA NÃO DEVE SER A PANICAT. Como ela é burra, descerebrada, passiva, como ela ganha dinheiro mostrando a bunda, blablabla. Quando você concentra a sua crítica na figura da Panicat, e não nos responsáveis pelo programa, você também está sendo misógino. MUITO MISÓGINO. A Panicat é vítima de misoginia duas vezes: a de seus chefes e a sua.

Se você acha que é mais vergonhoso ser a Panicat do que ser o produtor, o patrocinador ou o apresentador de um programa de TV desses (ou seja: os criadores e executores da humilhação), então você está se baseando nas mesmas idéias que justificam a existência de quadros como esse: de que mulher burra merece ser humilhada mesmo, quem mandou estar ali, etc. Se as mulheres não se submetessem a posições esdrúxulas, não existiriam Panicats, certamente. Mas, antes de tudo, se não houvesse uma sociedade machista em que homens controlam empresas de mídia e criam programas em que vale humilhar mulheres por audiência, e se não houvesse uma audiência que acha que mulher gostosa e burra tem mais é que se foder, nada disso existiria também. Então bóra focar a nossa crítica na parte mais ativa da equação?

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37 responses »

  1. esse é um ponto bem legal q mta gente deixa passar… mas na vdd, eu nem sei o q rolou. primeiro, pra mim, ela tinha raspado pq quis e o povo tava julgando isso. agora q tou vendo essa de humilhacao… bom, eu nao sei o q rolou direito, mas li até boatos de q ela teria feito isso como estratégia para esconder uma quimioterapia q ela vai se submeter no futuro. coisa de louco.

    • Darkgabi — então, tem o vídeo da cena no you tube. Eles deram à moça uma escolha: ou cortar o moicano do neymar ou raspar careca. E já ameaçando as outras Panicats: “as próximas vão ser vocês”. E fica aquela coisa: que margem a Panicat tem para recusar a merda toda, pra dizer “ninguém mexe no meu cabelo?”. Será que ela seria demitida? Ou iria pra geladeira?

  2. Olá. Primeira vez que venho ao site/blog e achei seu assunto muito interessante e válido de um comentário. Primeiramente, parabéns pela profissão, assumo em dizer que a minha primeira escolha tb foi para o jornalismo, mas a vida nos leva pra outros caminhos.. De qualquer forma, o que vim aqui dizer é simplesmente que discordo de suas opiniões. Não tem nada a ver com programas de auditório ou escolhas “profissionais” de umas e outras. Mas discordo sim, uma vez quando vc diz que mulheres tendem a se concentrar em carreiras de humanas, artes, educação e por isso estão fadadas a ganhar menos que os homens que escolhem carreiras tecnológicas. É claro que muitas escolhas profissionais são guiadas pelos estereótipos de cada sociedade, mas não dá pra generalizar e vc, feminista como tal não pode discordar que hoje em dia, nós, mulheres simplesmente nao nos contentamos mais apenas com aquilo que nos foi reservado ser.. além disso, acreditar que o sucesso profissional / monetário tem relação direta e unicamente com a área escolhida exclui muitas profissionais que, atualmente, conseguem administrar sozinhas, casa, filhos, serviço, etc, e ainda ter a satisfação de um emprego bem sucedido monetariamente. Enfim, acredito que seja muito simplista, e até mesmo machista, julgar que o único emprego que permite a nós ganharmos a mesma coisa que homens em posições como TI e engenharia, por exemplo, seja como sex workers. Sucesso profissional tem a ver com esforço, dedicação, realização… independente do sexo / classe / cor.. Não posso negar que ainda vivemos em um país com preconceito sexista, mas posso te garantir que, hoje em dia, já tem muita mulher empresária ganhando mais do que muito TI do Vale do Silício! Um abraço!

    • Oi, Carolina! Respondendo a alguns pontos que talvez não ficaram muito claros:

      1- Não estou dizendo que as escolhas profissionais das pessoas derivem apenas dos estereótipos de gênero. Há diversos outros fatores que influenciam nossas escolhas, isso é óbvio. Só estou dizendo que, de modo *geral*, as mulheres tendem a se concentrar em determinadas profissões e os homens, noutras. Tem muito mais mulher virando enfermeira do que homem, e muito mais homem virando engenheiro do que mulher.

      2 – Embora hajam profissionais ganhando bem em quaisquer áreas, de modo *geral* as profissões de maioria masculina tendem a ser melhor pagas. Isso não é um achismo meu, é a realidade do mercado. Tem mulher que ganha mais do que cara no Vale do Silício? Tem. Essas mulheres são a regra? Não.

      3 – Também não sou eu que estou “julgando” que a indústria que mais paga às mulheres é a indústria pornô. Isso é uma realidade, não estou tirando da minha cabeça. Se você der um simples google, vai achar um monte de referências. Isso significa que eu esteja defendendo que as mulheres entrem nessa indústria? Não. Significa que eu ache a indústria pornô boazinha em relação às outras? Claro que não. Significa que não haja mulheres ganhando bem em outras áreas? Claro que não. De novo, estou simplesmente apontando uma tendência de mercado. E falar da tendência não é negar as exceções, muito menos defender que a tendência seja o caminho mais desejável.

      4 – Em momento algum eu disse que o sucesso profissional depende *apenas* da profissão escolhida. Tem engenheiro, TI e médico na pindaíbaAliás, antes de tudo, o que é sucesso? Esse é um conceito que varia de pessoa para pessoa. O que se está falando aqui é de salários, nada mais. Algumas profissões tendem a ser mais bem pagas que outras, embora haja profissionais com salários astronômicos em tudo quanto é área. É só isso que estou apontando.

      • Acho que o Pânico atingiu seu objetivo! Será que vocês não perceberam que este tipo de atitude, que vem sendo recorrente desde o começo do programa, assim como mostrar o lado humano das estrelas globais, que apesar da fama, tem bafo, são neuróticos, egocêntricos e não são exemplo pra nada, só serve para colocar em pauta discussões como estas? Não se indignem com o Pânico, se indignem com a Luciana Gimenes, com a Ana Maria Braga, com a Xuxa, Hebe Camargo, Angélica etc… Que anestesiam a mente dos do público e e esterilizam e esvaziam a tv com futilidades, assim como os exemplos de homens acima do bem e do mal, que fazem papel de bom moço, estéreis, robotizados. Pior que o “Programa Pânico” são as novelas, os programas de fofoca, o jornal manipulador. Aqui no Brasil as pessoas vivem em torno da televisão, ninguém ocupa os espaços sociais, as praças, as ruas, as livrarias, o único assunto em comum são advindos da televisão, que cada dia aliena mais o povo e anula qualquer senso crítico. Cuidado com os “ismos/istas”, este tipo de posição polarizada geralmente é tão viciada quanto a posição oposta, as feministas tendem a defender posições tão medíocres quanto os machistas, assim como qualificar as pessoas segundo suas profissões, cada um tem o direito de ganhar a vida como bem entende ou pode – não cometendo crimes, claro. Não há nada que garanta que as mulheres serão respeitadas segundo sua profissão e sua remuneração e não vejo diferença alguma no tratamento das mulheres no pânico em relação ao programa do Luciano Hulk, Faustão, Gugu, Zorra Total, programas de fofoca e de auditório em geral. Se este assunto está em pauta, agradeçam ao Pânico, pois tamanha é a falta de senso crítico da sociedade brasileira, que só exagerando para conseguirem colocar em pauta de discussão.

      • “não se indignem com isso, se indignem com aquilo”. Desde quando vc virou árbitro do que vale a pena discutir ou não?

        Outro detalhe engraçado é que vc diz para não nos indignarmos com um programa liderado por homens, mas sim com programas liderados por mulheres… ESSAS SIM é que estão causando o verdadeiro estrago na TV com futulidades. Oi? E o Pânico, não é fútil?

        No mais, só lamento sua obtusa posição de que a TV emburrece as pessoas e que todo “ismo” é perigoso. Tá lendo muita revista Veja, beijos.

  3. Marjorê, curti o texto, lymda.
    Só uma correção: ela não poderia estar em qualquer outro emprego. Poderia estar em outros empregos. Mas não em qualquer um. Nem você. A escolha é limitada pela contingência, sobretudo quando a distribuição de recursos simbólicos é desigual… 😉 ❤ (inclusive desigual entre homens e mulheres)

    beijocas, colégadeprofissao

    • Marília — isso, isso. Quando falei “qualquer outro”, quis dizer só “outro” mesmo. Vício de linguagem. bjs

  4. Adorei o texto e partilho de muitas ideias com você, mas discordo ferozmente no parágrafo que diz respeito às escolhas de carreira e rumos profissionais.

    Não tenho como negar que a sociedade padrões a serem seguidos desde o velho “menina pode rosa, menino pode azul”. Posso até ter entendido errado, mas a maneira como você falou soou como uma regra o fato de a mulher só conseguir o mesmo salário ou a mesma realização profissional com trabalhos sexuais. Essa é a ideia que leva uma Panicat a ser uma Panicat, na minha opinião.

    Já existiram milhares de mulheres que nadaram e nadam contra essa maré e com muito sucesso. E acredito que é o que podemos e devemos fazer para que a história do rosa e do azul se perca com o tempo.

    • Amanda — veja o comentário que postei para a Carolina. Acho que o texto não deve ter ficado muito claro. Estou falando de uma tendência de mercado: as mulheres tendem a se concentrar em certas profissões e os homens noutras. Exceções existem, ainda bem, e eu defendo que ambos – homens e mulheres- mais e mais nadem contra a maré. Porém. O mundo não é como eu gostaria que fosse (ainda). O mercado de trabalho tem marcação de gênero. Tem mais mulher se formando em humanas do que em exatas. Então eu preciso analisar o mundo tal como ele é, e não como eu gostaria que fosse. Ficou claro?

      Outra coisa: que a indústria do sexo é a única que paga mais às mulheres do que aos homens, vári@s autor@s feministas já apontaram isso. E não tem como negar que um cara recém-formado em engenharia tem perspectivas de um salário muito maior do que uma mulher recém-formada em enfermagem. Reconhecer que, para uma mulher com diploma de enfermagem ganhar o mesmo que um cara com diploma de engenharia na mesma idade, só se ela entrar na indústria pornô, não é DEFENDER que a mulher faça isso, muito menos defender o mercado tal como ele é. É apenas *reconhecer* a tendência. E reconhecer que muitas mulheres de fato, por quererem ou precisarem de um salário maior, escolhem isso. Eu gostaria que não fosse assim. Mas é. Agora resta à gente militar pra que não seja assim sempre.

      bjs

  5. Gostei muito do que você escreveu, eu mesma não estava sabendo (não vejo TV) e vi a foto circulando no face… de inicio por vê-la meio que chorando eu achei que pudesse ter sido algo a favor do Câncer, que ela tinha doado o cabelo e etc… DOCE ILUSÃO… é revoltante o que eu vi a seguir e as explicações do que se tratava, minha reação foi olhar pro céu e pensar que este mundo de fato está perdido. Concordo em muito do que você escreveu e me sinto, como mulher, no mínimo ofendida… Veja bem, maioria dos caras que compartilha isso no twitter ou no face pensa exatamente do jeito que você está falando e as mulheres, fazem os comentários mais esdrúxulos possíveis…. Eu venho sentindo que a maioria dos brasileiros estão se tornando zumbis por que querem, deixando seus cérebros diluírem-se para coisas banais como uma Panicat e esquecem de pensar em coisas sérias como a corrupção nesse país que continua, persiste e ninguém se manifesta… Vamos é falar de uma moça que raspou o cabelo em rede nacional por dinheiro. Ah sim isso é mais interessante.

    • Luna — Então. esse é outro comentário que eu vi bastante. “Ah, foda-se, devíamos estar falando da corrupção e não do cabelo dela”. Eu acho que ambas as questões são importantes, e uma não exclui a outra. Que exista um programa de TV colocando mulheres em situações humilhantes é algo grave, que precisa ser debatido. E o fato de termos políticos corruptos, também. É preciso falar dos dois. Também não acho que exista uma relação causal entre as duas causas, tipo: as pessoas não prestam atenção na corrupção porque estão assistindo Pânico. A coisa é mais complexa do que isso… bjs

  6. Não precisa nem ser apenas o mercado do sexo. As mulheres mais ricas do mundo também são as modelos internacionais e atrizes de hollywood, juntamente com algumas outras que se encaixam nas exceções, tipo sei lá, Michelle Obama.

    • Isso. Modelo e sex worker. São as únicas profissões em que mulher ganha mais. Porém, nem todas têm o biotipo para ser modelo. Mas qualquer uma pode virar sex worker 😉

      Sobre a Michele Obama: mas primeira-dama não é profissão!

  7. Você me deu a impressão de ser uma garota frustrada em sua profissão. Entendi bem ?
    A propósito, seu texto realmente não ficou muito claro.

    • Bingo. Acho que vc não me conhece de blogs anteriores, né? Então fica o resumo: não gosto da profissão de jornalista e por isso larguei o emprego e fui fazer mestrado em estudos de gênero na Hungria. Ainda trabalho como jornalista freelancer pq preciso pagar as contas, mas largarei totalmente a profissão assim que possível.

      Porém, veja bem: não sou uma pessoa *frustrada*. Fui fazer jornalismo porque quis. Aí constatei que não era minha praia. Se nunca tivesse tentado, jamais poderia saber disso. Então não tem frustração nenhuma aí, apenas um processo natural de descoberta — do mercado jornalístico e de mim.

      Mesmo se eu fosse *frustrada*, a minha experiência pessoal não invalida os argumentos do texto. É Marx quem diz que toda profissão tem um quê de prostituição no mundo capitalista, não sou eu.

      Quanto ao texto não ficar claro, ajudaria bastante se vc dissesse em quais pontos. Assim posso explicar melhor o que vc não entendeu. Mas fica a dica que esse blog almeja falar pra quem já tem interesse e um mínimo de base em estudos de gênero, e pra quem já acompanhava meus blogs antigos. bjs

  8. Só um ponto. Acho que o quadro é pior do que esse que você retrata. Acredito (não tenho fontes, apenas leituras antigas, notícias, pesquisas, não sei nem de onde tiro isso…) que mesmo num mesmo emprego, num mesmo estágio da mesma área, ainda assim, uma mulher ganha menos que um homem. Então não é só questão da escolha de área entre humanas e exatas ou o que seja, na verdade, a falta de igualdade é crônica e atinge a mulher tanto verticalmente como horizontalmente.

    • Sim, as mulheres ganham menos entre profissões e também dentro de uma mesma profissão. No Brasil, mesmo seguindo o mesmíssimo cargo e com as mesmas qualificações, as mulheres ganham cerca de 30% menos que os homens. No site do IBGE tem as estatisticas =)

      bjs

  9. Oi Marjorie… não discordo totalmente de você e nem dos outros blogs feministas nos quais li textos sobre o assunto. Porém, o único texto com o qual me deparei que expressa bem o que penso é uma carta do ator Wagner Moura (coloquei ela na íntegra aqui: http://lifeisdrag.blogspot.com.br/2012/04/sobre-o-panico.html).

    Wagner Moura conseguiu dizer perfeitamente o que acho… sem cair nas discussões que tenho visto por aí, após esse episódio de rasparem a cabeça da panicat ao vivo. Não dá, tenho imensa preguiça das discussões de gênero sobre um programa que não humilha e ridiculariza mulheres apenas… é um lixo de programa que faz isso com todo mundo! Pra mim, a discussão não é feminista e muito menos fico com peninha de alguém que escolheu se submeter àquilo (ou a tal panicat foi obrigada a raspar o cabelo? Poderia ter dito não, pedido demissão ao vivo e, depois, usado esse fato para receber atenção e exposição na mídia…). O que esse programa faz não é exploração e humilhação feminina, é exploração e humilhação do ser humano de qualquer gênero! Deveria cair no ostracismo e não ter audiência… mas como o mundo está cheio de babacas, babaquices como essa continuarão a ter audiência, infelizmente.

    • Rê, já tinha visto esse texto do Wagner Moura. É ótimo mesmo. Concordo que o programa é um lixo em vários sentidos, e que eles zoam tudo quanto é gente. Porém, no caso especifico das Panicats, é preciso considerar que vivemos num mundo com hierarquia de gênero. Então os quadros das Panicats refletem isso, pois são basicamente homens obrigando muilheres semi-nuas a passarem por situações escatológicas, assustadoras ou vexatórias — e não acontece o contrário, não há mulheres colocando os homens na mesma posição. Então a questão de gênero está presente aí sim, como está presente em todo lugar, mesmo que outras pessoas também sejam agredidas pelo programa.

      Falar sobre o machismo presente no programa não é uma questão de ter “peninha” das moças. Meu interesse aqui é menos falar da Panicat como indivíduo do que da situação em si. Aliás, o objetivo do meu post é apontar que manter o foco na figura da Panicat como indivíduo, e nas suas escolhas, no que ela faz ou deixa de fazer, é o foco errado. A gente tem que analisar a situação de um ponto de vista mais global mesmo: que sociedade é essa em que um programa desses existe? Que sociedade é essa em que mulheres desejam ser Panicats? Então, nesse sentido, o meu texto e o do Wagner Moura questionam o mesmo.

      Eu disse no post com todas as letras que a Panicat poderia ter recusado. Margem pra isso ela tem. Ela poderia nem sequer ter esse emprego! Mas você leu o resto? Não podemos parar aí. “Ok, ela podia recusar, então azar o dela”. A questão é que temos uma mídia que diz às mulheres que ser gostosona e famosa é o máximo. Essas meninas querem ser famosas, capas de revista. Então elas sabem que, se não se submeterem às humilhações, tem outras na fila esperando pra ocupar o mesmo lugar. Logo, dizer não não é assim tão simples. Ao dizer não, ela compremete toda a carreira que ela quer construir. Ela poderia conseguir uns cinco minutinhos de fama recusando e criticando esse tipo de programa, claro. Mas e depois? Fecharia as portas com todo mundo. Que outro emprego na TV ela poderia arranjar?

      Há diversas babaquices praticadas pelo Pânico e outros programas e elas devem ser debatidas, e a questão de gênero é uma delas. bjs

      • eu li sim… por isso que disse que não discordo totalmente de você… e inclusive só comentei porque gostei muito do seu texto e porque é um dos únicos que li que dizem que ela tem margem para ter recusado, mesmo que depois tivesse um preço a pagar por isso, além de ser o único que disse uma coisa bem verdadeira: que no sistema capitalista todo trabalho é uma forma de prostituição.
        Aliás, esse seu texto e do Wagner Moura se complementam bem…

  10. Muito bom o texto, Marjorie. Não posso falar do episódio da Panicat em si porque não acompanhei nem corri muito atrás do assunto, realmente não me interessou.

    Agora isso que você citou, sobre a personalização do problema, é algo que me incomoda em muitas discussões feministas. Sempre, sempre, sempre citam alguma famosa nominalmente e jogam a responsabilidade da objetificação da mulher nas costas dela. Como se ela tivesse puxado pra si aquela posição. Como se não houvesse todo um mecanismo atrás dela a promover isso, um público a consumir, e uma fila de mulheres esperando pra ser a próxima a assumir aquele lugar. E acho que isso é outro aspecto dessa objetificação: a “vida útil” delas na mídia é muito curta. Só ver o rodízio de Panicats, como algumas nem esquentam chão. O Luciano Huck ficou famoso e ganhou dinheiro em cima de Tiazinha e Feiticeira, e se descolou das imagens dela quando foi conveniente (leia-se “apresentar programa família na Globo”).

    Por isso eu fico triste quando a discussão acaba no pessoal, no particular, no “ela é ridícula/fraca/vendida de fazer isso”. A discussão entra no campo do achismo e morre aí.

    • Pois é. E agora temos a Carolina Dieckmann, né Gabi? “Também? Quem mandou tirar as fotos?”. Só porque é pessoa pública, não pode mais brincar de tirar foto pelada pro marido DENTRO DE CASA e manter as fotos no computador DE CASA.

      Fico de cara mesmo com essa lógica de que errado não é quem roubou as fotos, errada é ela por ser mulher e fazer sacanagem, ainda mais sendo famosa. Coisa de gente pudica e que não deve fazer sexo de qualidade — porque né, QUEM NUNCA TIROU UMA FOTINHO?

      …E aí quando ela tenta fazer alguma coisa para obter justiça pelo crime virtual que sofreu, aí é uma vaca porque “tá querendo fechar a internet”. S´ério, não sei o que se passa na cabeça das pessoas.

      • Exatamente. Outra coisa que vi demais na minha timeline foi o pessoal reclamando que a polícia prendeu os ladrões das fotos dela bem rápido (supostamente por ser famosa), e quem deveriam fazer o mesmo esforço pra prender pedófilos e etc.
        Falam isso gratuitamente, sem saber como é o trabalho de investigação de crimes virtuais, como vão atrás de pedófilos, o que precisam pra prender, % de sucesso, etc. Só aí dava pra ver se existe um problema (darem mais atenção a fraudes envolvendo famosos e cagarem pra pessoas comuns), e apontar nuances (punem pedófilos e fraudadores de dados de bancos, por ex., mas não quem vaza fotos alheias).

      • Né? Nego não se toca que casos envolvendo celebridades têm mais apelo jornalístico — por isso, aparecem mais. Só porque outros crimes virtuais (cometidos contra gente comum) não ganham as págs dos jornais, não significa que não exista combate nenhum a eles. *Facepalm*

  11. Que ótimo texto e comentários, Marjorie! Prá variar… 😀
    Sabe que cheguei a ficar momentaneamente triste quando vc mencionou o abandono ao jornalismo? Mas logo me dei uns tapas e acordei: ela não escreve muito bem porque é jornalista, mas antes de mais nada porque trabalha para pensar o mundo e de maneira abrangente. E, bem, claro, consegue colocar muito bem o que pensa em palavras, para o que, a sua trajetória pelo jornalismo deve ter ajudado, mas não determinado.
    Tdo isso prá dizer: “não nos abandone!! Precisamos de sua palavra, mulher!!!” Beijos e sorte sempre por aí.

  12. MAS PORR QUEE raspar o cabelo eh humilhacao gente?
    E tipo, o povo do panico faz um monte dessas babaquices e ~humilhacoes~ com todos os integrantes, todos mesmo
    Tem um quadro Jackass-wannabe q fazem um monte de torturas fisicas com o Bola (principalmente) e com os outros integrantes; teve a babaquice de fazer o vesgo engordar ate correr riscos de saude. Eles sao babacas com as panicats, mas nao soh com elas. E, mais uma vez, mandar a mina raspar o cabelo eh uma babaquice, sim. Como varias outras q eles fazem/fizeram com vari@s outr@s integrantes. Mas dizer q raspar o cabelo eh humilhacao? Ah va. Rasparam o cabelo do bola tb no mesmo programa, alguem ficou de mimimi por ele? Eu acho q vcs eh q tao dando valor demais pro cabelo, que afinal cresce. Se a mina nao ligou, pq q a gente vai ficar aqui dando importancia? Eu hein.

    • É humilhação porque os cabelos femininos têm um significado construído socialmentre. A beleza é tida como um atributo (ou obrigação) essencial para a feminilidade, e o cabelo comprido é um desses sinais de “beleza”. Por isso muita mulher tem dó até de cortar o cabelo, que dirá de raspar. Logo, forçar uma mulher a raspar os cabelos não é uma coisa á toa, é um ato dotado de carga simbólica.

      E o meu interesse pelo caso não é se a Panicat em si gostou ou não gostou, se não ligou (ela pareceu chorar enquanto tinha o cabelo raspado, então né… Essa de “não ligou”, não é bem assim…). O meu interesse é o que se faz com as mulheres na TV aberta, que é uma concessão pública. Tem importância, sim. E, se achamos que têm importância, vamos continuar conversando sobre isso o quanto quisermos, quer você concorde ou não. Se vc acha que o assunto não é importante, vá conversar sobre o que lhe interessa. bjs

  13. Olá, moça. Cai no seu blog ao acaso, e bem, achei o seu discurso bem mais lúcido e palpável, principalmente no post sobre o filme bridsmaik (escrevi errado), em que lendo alguns fóruns você teve a impressão de que algumas meninas só querem ser representadas por um modelo ideal de mulher. Tenho essa sensação constante ao ler os blogs… entendo a parte de lutar por direitos iguais e desconstrução de gênero, mas, me assusto com certos debates, o tom militante, enfim. Até me assustei ao ler um post neste blog http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2007 (a edição é antiga), em que a blogueira ao fazer a critica do filme, exalta o comportamento de uma das personagens que manda em seu marido. Eu espero que tenha sido irônico. Tenho mais dúvidas que certezas… dizer sou feminista ainda é muito forte pra mim, pq não quero estar atrelada a isso de “superioridade”, de ser extremista. Bem, gostei do seu jeito de escrever e espero aprender lendo seus post. Sobre a panicat, eu tenho essa duvida paradoxal… tantas lutas para as mulheres serem levadas à sério, e sempre aparece alguém que decide viver do corpo, se submeter, e a justificativa é culpar a sociedade que a ensinou que isso é correto. Sei lá…digerir isso do dia pra noite não é processo fácil, mas, tô tentando. Juro. Que bom que você arranja tempo/consegue responder, espero uma resposta tbém rsrs. Obrigada.

    • Oioi! Desculpa a demora em responder. Mas super entendo o que você quer dizer. Eu já escrevi sobre isso em outros blogs, que infelizmente não estão mais no ar, mas acho mesmo que a postura vitimista de algumas feministas afasta muitas mulheres do movimento. Porque fica uma imagem negativista, carrancuda, que em vez de focar no que as mulheres podem ser (ou seja, numa concepção positiva de liberdade, em que se pode ser livre PARA tal e tal coisa) acaba focando apenas numa liberdade negativa (quero ser livre DE isso e aquilo que me impede). E as pessoas não querem se identificar com um movimento que fica o tempo todo dizendo a elas que elas são vítimas e que estão unidas pela posição de vítima.

      Enquanto os movimentos negro e gay, por exemplo, têm um discurso centrado no orgulho (orgulho gay, black is beautiful, etc), o discurso feminista mais mainstream, digamos assim, consiste em dizer “não, mas apesar de todas as conquistas, ainda somos oprimidas, ainda temos muito o que conquistar” — o que não é uma inverdade, a opressão existe, claro. Mas este é um foco que afasta muito os leigos. É o que eu acho.

      Talvez seja por isso que muita gente, apesar de se identificar com muitas ideias e causas feministas, simplesmente se recusa a adotar o rótulo de “feminista”. Tenho colegas de classe, fazendo mestrado em estudos de gênero, que não se dizem feministas. E acho que é por causa disso. Porque elas não querem ser associa
      das a um movimento cujo discurso, para elas, é limitador. Eu discordo dessa posição, me defino como feminista e acho importante fazê-lo, mas mais e mais começo a entender a posição das minhas colegas…

      Sobre o tom que aparece no blog da Lola e em outros blogs feministas, prefiro não comentar porque já reclamei disso publicamente e foi o MAIOR REBU. Então melhor ficar quieta. Só digo procê que existem várias vertentes do feminismo, e que nem todas se centram numa constante “guerrinha aos mascus”, sabe? Continue lendo e pesquisando porque tem diversas blogueiras e acadêmicas lindas de viver por aí.

      beijos =-*

  14. Não achei esse verbo haver errado, fiquei até curiosa. Mas o que me deixou mais chocada foi perceber que tem gente que realmente não lê, apenas passa os olhos. Não devem ter muito tempo, mas por quê então gastam tanto tempo comentando o que sequer leram?

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