Tomem tenência!

Padrão

(Se vc ainda não viu o capítulo de ontem de Avenida Brasil, veja aqui)

Se tem uma tecla em que eu bato é que a cultura pop pode e deve ser levada a sério, pois ela reflete os valores das sociedades onde são produzidas. A mídia é um dos mecanismos mais importantes de reprodução do status quo.  Então, todo apoio à galera que tenta destrinchar como o machismo é reproduzido na cultura de massa. Mas, porém, contudo, entretanto, todavia. É preciso tomar cuidado para não cair em vícios de análise e raciocínios simplistas.

– Nem toda cena de mulher apanhando é necessariamente cena de violência doméstica. Depende da trama, depende do contexto.

— Carminha não apanhou apenas de Tufão, mas de Tufão e Muricy. Ivana, se não fosse impedida, também teria batido. Ou seja: não é uma cena de um homem subjugando uma mulher, mas de um barraco generalizado. De uma catarse. A família toda se sentindo traída, batendo e xingando.

– Os petelecos que Carminha levou de Tufão e sua família são um caso de machismo? No contexto da trama, não. Tufão nunca tratou Carminha como sua propriedade. Não bateu nela por ciúmes, porque ela o desobedeceu ou queira deixá-lo. Tufão nunca agiu como se tivesse direitos sobre a integridade física da Carminha por ser homem. Muito pelo contrário. O personagem é tudo, menos um machão. Tufão é um personagem sensível, muito mais “feminino” que a própria Carminha. A Carminha NÃO É uma Maria da Penha, impedida de sair de casa e eletrocutada pelo marido. Eu vejo muito, mas muito mais machismo no tratamento que Leleco dava a Tessália (principalmente depois que ela o deixou) e o engraçado é que não vi nenhum(a) feminista falando disso na rede.

— Tufão e a família não bateram em Carminha apenas porque ela teve um caso extraconjugal. Bateram nela porque ela enganou, mentiu, roubou, jogou criança no lixão, enterrou gente viva, forjou o próprio sequestro, tentou matar uma pessoa… Vale lembrar que Muricy, assim como Carminha, teve um caso extraconjugal debaixo da fuça do marido, dentro de casa. Mas, ao contrário de Carminha, a história dela foi retratada com humor.

— Aliás, essa novela está repleta de personagens femininas traindo e periguetando, como Olenka, Suellen e a carola que no fim ficou possuída pelo ritmo Ragatanga e virou atriz pornô. A própria Nina usou da sedução pra levar o Max na lábia. Nenhuma dessas personagens foi condenada, humilhada ou espancada por seus comportamentos sexuais. Muito pelo contrário: Olenka e Suellen, por exemplo, têm a simpatia do público.

— Assim sendo, acho que o desfecho da Carminha não deve ser lido como uma questão de moral sexual ou de gênero (haja vista que o Max, seu parceiro, também apanhou pelos mesmos golpes), mas sim de moral num sentido mais amplo. Não foi a personagem “adúltera” quem apanhou. Mas sim a personagem que, além de “adúltera”, foi também estelionatária, ladra, golpista, assassina.

— O fato das novelas terminarem com a vilã levando porrada reflete a mentalidade truculenta brasileira? Sim, claro, é óbvio. Outras culturas talvez não veriam a cena como catártica, como nós vemos. Porque nós somos um povo que lincha na rua. Nós somos um povo Lindomar. Isso tem que ser revisto e criticado? Sim, claro, é óbvio. Mas também temos que pensar na novela como formato, como gênero narrativo.  Sua função primordial é entreter. Teria graça uma trama em que Carminha, depois de fazer tudo o que fez, fosse gentilmente convidada a se retirar da casa e terminasse processada por Tufão? Claro que não. Não teria emoção.

— Outra coisa de que não podemos nos esquecer é que os consumidores de cultura de massa não são burros nem passivos. Eles se envolvem ativamente com os produtos culturais, escolhendo os aspectos com os quais se identificam (pra quem se interessar sobre isso, recomendo ler Sue Tornham). Veja, por exemplo, que apesar da Carminha ser a vilã golpista-assassina-adúltera, ela tem um lado engraçado e humano, e as pessoas simpatizam com ela. Aliás, taí o legal de Avenida Brasil: ela foge de alguns dos clichês de novela. Nina e Carminha praticamente se equiparam na maldade e no egoísmo, não existe mocinha e bandida. Quem acompanhou o twitter ontem na hora da novela viu que o pessoal, ao mesmo tempo em que curtia ver a Carminha finalmente se ferrando por seus crimes, também curtia o “sincericídio” dela, e meio que torcia por ela. Ao apanhar, Carminha não foi humilhada. Pelo contrário: ela apontou também os defeitos e hipocrisias da familia de Tufão.

— Se vocês conseguem ver o que há de errado na novela, saiba que o público em geral é tão inteligente quanto você. Acho paternalista agir desse jeito: “não pode ter cena assim, porque senão as pessoas vão achar legal e fazer igual!”.  E essas “pessoas” são sempre os outros e não o sabichão que profere a frase — este sim, conhece a verdade. Podem ficar tranquilos porque as pessoas *sabem* que descer a porrada tá errado. E que, no dia a dia, esse não é o melhor jeito de resolver as coisas. Curtir ver a vilã tomando uma porrada não significa que você vá achar isso certo na vida “real”,  automaticamente.

— A naturalização da violência contra a mulher se dá por uma série de mecanismos e instituições que se complementam e se repetem (vide Judith Butler). Está muito mais ligado a como construímos os conceitos de masculinidade e feminilidade. A cena da queda da Carminha não faz um statement sobre normas de gênero. Faz um statement sobre normas de conduta gerais (não mentir, não roubar, não matar).

Vamos criticar o machismo na televisão? Sim, mas calma na análise. Tomem tenência!

PS — eu não sou noveleira. Avenida Brasil é a primeira novela que assisto em anos (e peguei um pouco antes do capítulo 100, de tanto o povo comentar). Então minha análise fica restrita a essa novela em particular mesmo. A Iara fez um post sobre como é comum mulheres apanharem nas novelas. Parece que é corriqueiro punir adúltera com porrada. Então fica aí o link como contraponto =) Se isso é mesmo algo comum, eu concordo com ela. Dá pra punir as vilãs de outras maneiras, ou até mesmo questionar a necessidade de punir. Mas continuo achando que a cena da Carminha tá ok. Porque ela saiu super por cima dos tapas.

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33 responses »

  1. Parabéns, nunca assisti à novela, não me interesso de verdade mas inevitavelmente todos acabam por acompanhar e ainda achei essa matéria ótima!

  2. Muito bom post!

    Fico pensando que a relação entre mídia de massa e população é sempre em duas vias (a população reflete o que vê, e o que se vê é reflexo da cultura da população). Também fico pensando que se for tirar a cena da novela porque ela reflete uma violência, então vamos ter que eliminar também todos os filmes de assalto, assassinatos etc etc etc.

    Eu só não concordo totalmente com o trecho em que você diz que a população em geral vai ver algo de errado na cena em que a personagem malvada é espancada, porque nosso background cultural é um pouco diferente dessa “população em geral”. A maioria das pessoas fora do círculo ativista-feminista não concorda que a propaganda da Hope, por exemplo, é machista (e nós vemos claramente como e porque ela é machista). Muita gente vê CQC ainda, Rafinha Bastos se bobear é uma das pessoas mais seguidas do twitter. Pensa também que 3 vereadores foram eleitos aqui em SP representando a bancada “da bala”. (Não estou dizendo que as pessoas que votam nesses seres são burras ou inaptas, só tem uma vivência diferente etc).

    Mas acredito também que você está totalmente certa ao dizer que não é porque a população aprova aquele comportamento _na novela_ que vai aprovar esse mesmo comportamento na vida real, ou que replicaria essas ações.

    • Oioi. Então, não quis generalizar. Claro que não é todo mundo que enxerga problema nisso, sempre tem a turma que bota panos quentes e tal. Mas eu também me incomodo com a postura paternalista, tipo “como EU sou iluminado e vejo problema nisso, preciso interceder pelos ignorantes que não enxergam o problema e que vão fazer igualzinho ao Tufão”. Acho que a gente não pode subestimar as pessoas — e o quanto as novelas de fato influenciam o comportamento do público, é algo que precisa ser estudado (de repente já até estudaram isso aí e eu não sei). Enfim. Mas citei a Sue Tornham, que mostra que mulheres podem tirar mensagens subversivas mesmo de produtos pop mainstream (que não seriam considerados feministas). Então vale pensar nisso aí, que nem sempre o que as pessoas vão apreender dessa cena é “mulher tem mais é que levar porrada”. Bjs

    • Oioi. Então, não quis generalizar. Claro que não é todo mundo que enxerga problema nisso, sempre tem a turma que bota panos quentes e tal. Mas eu também me incomodo com a postura paternalista, tipo “como EU sou iluminado e vejo problema nisso, preciso interceder pelos ignorantes que não enxergam o problema e que vão fazer igualzinho ao Tufão”. Acho que a gente não pode subestimar as pessoas — e o quanto as novelas de fato influenciam o comportamento do público, é algo que precisa ser estudado (de repente já até estudaram isso aí e eu não sei). Enfim. Mas citei a Sue Tornham, que mostra que mulheres podem tirar mensagens subversivas mesmo de produtos pop mainstream (que não seriam considerados feministas). Então vale pensar nisso aí, que nem sempre o que as pessoas vão apreender dessa cena é “mulher tem mais é que levar porrada”. Bjs

  3. O legal é que uma das personagens – acho que a Zezé, que é óteeema! – ainda diz na própria novela: ela saiu por cima, falando as verdades todas da família. Está posto, portanto, a ~superioridade~ da vilã.

    • Pois é. Achei o máximo isso, porque ela levou porrada física mas deu porrada verbal em todo mundo. Algumas dessas porradas, merecidas. Ela não saiu humilhada.

  4. Um blogueiro que escreve sobre televisão indicou esse post e eu não poderia ter ficado mais feliz!! Seu blog é sensacional! Gostaria de ter escrito a maior parte dos posts que li aqui… Pena que sou preguiçosa e não consigo organizar minhas ideias (mentira, escrevo mal pra caralho mesmo).
    Tava precisando de uma leitura feminista que fosse além dos clichês a la Corra Lola Corra..

    Virei leitora. 🙂

  5. Olha só, eu gostei muito do seu post e eu acho mesmo que, no caso da Carminha, a coisa até cabia bem. Primeiro que só quem nunca assistiu a novela pode dizer que é um caso de violência doméstica, porque realmente o que aconteceu não foi uma surra, mas uma reação intempestiva de raiva e tals. Tá todo mundo revoltado, vira a mão na cara.
    O meu ponto é, além da recorrência, o valor simbólico desproporcional que as coisas tomam. Por exemplo, ouvi gente dizendo que o Max também apanhou, até perdeu dente e tals. Apanhou de quem mesmo? Ah, de um agiota. Ah, teve o dia que o Jorginho partiu pra cima. A questão é: ninguém liga a televisão falando “olha, hoje é imperdível o capítulo, o Max vai apanhar!”. O Max apanha porque é um loser, um babaca, e não há (ou quase não há) catarse nisso. O que a gente quer ver é a vilã apanhando. É isso que dá audiência. E ela apanha sempre, em toda novela. Mesmo que não seja exatamente vilã e tal. Aliás, este post que você linkou eu fiz como contraponto de um post anterior, sobre as novelas do Manoel Carlos, em que sempre há uma mulher apanhando por sua moral sexual. Linko aqui também: http://foifeitopraisso.blogspot.com.br/2010/04/manoel-carlos-o-misogino.html
    Concluindo, eu acho que Avenida Brasil, isoladamente, nem é problemática, que as coisas tão contextualizadas, e principalmente, que havia muita dignidade na Carminha levando tapa na cara e se mantendo altiva, porque ela é o máximo. O que me incomoda é a recorrência da violência.

    • Iara, cê vu que eu linkei seu post? =)
      Então, concordo com você. Eu não vejo muita novela, então analisei só Avenida Brasil mesmo. E acho que, no contexto da trama, não é uma porrada machista. Mas se, como vc está dizendo, é recorrente o negócio da vilã apanhar (e às vezes sem ser bandida, apenas adúltera) e as pessoas esperam por isso, então claramente tem uma questão de gênero aí mesmo.
      bjinhos

  6. Existem duas problemáticas discutíveis que foram levantadas nas redes sociais. O machismo e a violência doméstica. De fato, não consigo enquadrar de nenhuma forma o comportamento do personagem Tufão dentro de um contexto machista.
    Mas a problemática da violência doméstica, essa sim é bastante discutível. Quer dizer que se alguém age de forma moralmente condenável pode sofrer violência física por isso? Veja que não estou discutindo nem o gênero. Estou discutindo a violência que muita gente apoiou.
    Eu não sei como funciona o enquadramento jurídico de uma situação de violência doméstica, mas acredito que é por aí que deve se discorrer e discutir.
    Violência doméstica é qualquer situação de violência dentro de casa ou precisa acontecer dentro de um contexto machista, corriqueiro?

    Também lembro que a novela pode retratar qualquer situação e não deve sofrer represálias por isso. É ficção, tal qual aquela violência de videogame que permite explodir pessoas na rua.
    O que me surpreendeu foi ver pessoas defendendo a violência se esta fosse uma situação real.

    A novela pode ser bastante útil trazendo um fato fictício pra ser discutido e pensado num contexto real. Acho benéfica a discussão e faço essa proposta com esse comentário.

      • Bacana, Amanda. Fica aí outro contraponto. Mas eu acho que, para além de enxergar lógica punitivista na novela, deve-se propor então como contornar isso sem perder o entretenimento (que é pra que serve a novela. Se a novela não divertir, não funciona). De que maneira você restruturaria a narrativa de Avenida Brasil pra ficar menos “punitivista”?

        Eu particularmente acho essa uma tarefa bem difícil. Perderia a graça uma Nina que somente processasse a Carminha. Basicamente, não ia ter novela. Outra coisa: se o tema central da novela é o sentimento de vingança, é óbvio que as personagens não vão resolver seus problemas procurando as autoridades competentes. Porque de civilizada, a vingança não tem nada. Essa é a questão. Vingança é algo mesquinho. E é a mesquinhez da vingança que a novela visa retratar.

        Não acho que a novela faça um *elogio* da vingança. Ao colocar Nina em pé de igualdade com a Carminha, a novela mostrou que a vingança tem muito de vaidade, egoísmo. Acho tb que o fato da Carminha no fim ter se fodido sozinha, pelas suas próprias estrepadas (e não por vitória da Nina) é outra uma maneira de não fazer o elogio da vingança. O Sakamoto citou Dogville. Que é outro filme que retrata vingança mas não faz um elogio dela. Então fica a velha máxima: retratar uma coisa não é fazer o elogio dela.

        Que a família tenha sentido raiva e agredido a mulher que a enganou durante tantos anos, acho compreensível. Não é o certo, mas é compreensível que se sinta assim. Se fizessem a mesma coisa com você, não seria possível você ficar puta da vida e perder a cabeça? Ainda não sabemos o final da Carminha. Se ela sair por cima, se ela se der bem, a narrativa é punitivista? Acho que não.

        Quanto à recorrência de mulheres apanhando em novelas, repito: não tenho costume de assistir novela, então não tenho como avaliar. A Iara avaliou, acho o psot dela bacana, e acho que uma boa análise disso tem que ser mesmo com um conjunto de novelas. Mas no caso *específico* da Carminha, eu acho que a acusação de machismo não se aplica.

        bjocas

    • Moisés, de acordo com a lei Maria da Penha, violência doméstica não é qualquer violência que aconteça dentro de casa, mas sim violência contra a mulher por parte de seu marido, companheiro ou parceiro. Tanto que se a Luana Piovani foi agredida em público e recorreu à mesma lei 😉 A lei é voltada para mulher especificamente porque são elas as mais afetadas por esse problema (tanto por uma questão de força física como também por uma questão cultural, os homens batem mais nas mulheres do que o contrário, porque vivemos numa cultura que espera que elas sejam submissas).

      bjs

  7. você já estudou violencia domestica??? não dá pra pensar apenas como uma questão de gênero, se ela saiu por cima ou não. a questão é a perpetuação e aceitação publica de um ato condenável.

    • Não, eu só tô fazendo mestrado em estudos de gênero, numa das melhores universidades na área (http://www.uu.nl), e ganhando bolsa da união europeia pra isso. E só me formei pela USP com um TCC que tem um capítulo ~inteiro~ sobre violência doméstica e levou 10 da banca.

      *devolvendo arrogância com arrogância, porque né? Discordar do argumento é uma coisa, chegar classificando a pessoa como completa ignorante sobre o que tá dizendo é outra*

      • calma… eu não to te classificando como nada! Parabéns pela sua formação acadêmica e sucesso com a pesquisa.
        e me desculpe se pareci arrogante! foi uma tentativa infeliz te iniciar uma discussão.

      • ps: fui procurar seu e-mail pessoal e só agora vi suas informações e contextualização do teu texto. poderia ter feito isso antes e formulado o comentario de outra forma…. bjo!

      • Oi, Monica.Desculpa, achei que vc tava numa linha “ai, vc não sabe de nada do que vc tá falando”. Aí fiquei meio ofendida. Volte sempre. bjs

  8. Marjorie,

    Sempre gosto muito das coisas que você escreve, mas hoje vou ter que discordar. Acho que o problema dessa cena com a Carminha não é a cena em sim, mas o “conjunto da obra”. É um costume da Globo fazer essa cena catártica onde a vilã é espancada para delírio da audiência:

    http://br.tv.yahoo.com/noticias/maiores-surras-da-hist-ria-da-tv-brasileira-120700640.html?page=5

    Veja que nessas tais maiores surras da tv brasileira, só aparecem mulheres. Eu acho isso muito estranho. Parece que se arma essa cena onde vai ser justificável espancar uma mulher, porque ela “mereceu”. Sei lá, me parece muito estranho. E se a gente pensar que tem gente que xinga e bate nos atores que estão fazendo papel de vilão até hoje, não sei se dá pra afirmar que isso não é um problema. Pra mim é um tema que merece sim atenção.

    • Oi, Cynthia. Então, concordo contigo. Acho super válido levantar essa bola, já que a surra na vilã pelo jeito é uma instituição na novela brasileira. Como disse no PS do post, eu não sabia disso, porque não tenho o costume de assistir novela. A última novela que eu vi antes de Avenida Brasil foi O Clone, ou seja. Eu era criança ainda. Comecei a assistir Av. Brasil um pouco antes do capítulo 100, porque todo mundo estava comentando e dizendo que era uma novela excepcionalmente boa. Inclusive amigos meus que não têm tb o costume de ver novela. Acabei me interessando e gostando muito. Acho uma produção super interessante, porque não tem mocinha (acho que a mocinha é o jorginho, né?), a fotografia é excelente, e embora o tema central seja vingança eu não vejo um elogio à vingança, mas sim uma crítica a ela.

      Então esse meu post analisa apenas a trama de Avenida Brasil, e não a instituição da surra na vilã. No caso específico de Avenida Brasil, não acho que Carminha seja uma vítima de violência doméstica. Na vida real, se ela processasse o tufão pela agressão com base na lei, por exemplo, dificilmente ganharia. Aí eu queria chamar atenção pra isso. Que nem toda cena de violência é uma cena de machismo necessariamente. Porém, se você analisa as novelas em conjunto, e verifica a RECORRÊNCIA da surra na vilã, aí sim é mesmo um fenômeno machista que deve ser analisado.

      Então acho que a sua visão não exclui a minha, entende? Eu concordo contigo, como concordo com a Iara. Mas discordo da análise do Sakamoto (que tb não vê novela, e aliás não via nem essa, pra poder falar alguma coisa direito). E discordo de quem fala como se novela tivesse de ser uma coisa “do bem”, só passando exemplo de comportamento, sabe?

      Beijos!

      • Hoje saiu uma reportagenzinha na folha de SP dizendo que a própria Maria da Penha não encarou a questão como violência doméstica. Disse que o que foi feito à vilã é errado etc e tal, mas em linhas gerais disse mais ou menos o que você disse no post.

        Além do mais, ficção não tem obrigação de ser educativa. Como eu disse há um tempo atrás com relação a uma questão parecida, tou fora de um mundo que proíba livros do Nelson Rodrigues (ou no livro pode bater na mulher e na novela não? aí cai naquilo que você disse, do elitismo, “eu posso ler porque sei que é ficção, mas o povão não consegue separar a ficção da realidade então é melhor tirar isso deles.”)

      • André — acho que a questão não é apenas “ficção é ficção, não tem obrigação de ser educativa”. Acredito que a ficção não só possa como deva ser usada de forma transformadora/subversiva/educativa. A questão é ver quem é que está por trás dessas produções. Oi, quem faz a novela é a rede globo, sabe? Então não espere uma coisa super progressista, toda trabalhada na causa feminista, porque não vai rolar nunca. Esse tipo de arte tem de partir da gente, porque o interesse das grandes corporações de mídia é outro.

        Quanto ao Nelson Rodrigues, acho que é a mesma coisa do Monteiro Lobato. Proibir qualquer tipo de livro pra mim é barbárie. Acho que tudo tem que ser lido de maneira crítica. Em vez de endeusar Lobato e Nelson, ver que as obras deles têm problemas.

      • Sim, Marjorie, acho que no contexto da novela em si, fica difícil encarar como violência doméstica. Mas se a gente analisar isso que é praticamente uma instituição da Globo, a coisa muda de figura. E essa cena de surra da vilãa depois é repassada na programação, no Vídeo show, por exemplo. Aí eu acho que temos machismo sim.

        Outra coisa que me incomodou na cena foram os xingamentos, todos voltados para o comportamento sexual da personagem. Porque não chama-la de ladra, por exemplo? Porque condena-la pela traição, que não é crime? Se o Tufão tivesse se revoltado com o que ela fez de realmente criminoso, aí sim. Mas, de novo, o problema não é essa novela, é o conjunto.

        E eu também não acompanho novela. Gostei dessa porque me pareceu inovadora. Mas agora estou na dúvida, viu?

      • Cynthia, veja a novela como um texto polissêmico… É inovadora em alguns pontos e conservadora noutros. Aliás, acho que isso é o máximo que a gente pode esperar de produções de massa, de grandes empresas como a Globo. Beijos

  9. Adorei! realmente alem de escrever bem, organizar muito bem, seus argumentos e visão são super 10! Vivemos uma epoca que já se banalizaou tanto os valores e q se humaniza tanto a bandidagem, que as vezes acho que estou em Marte e nao sou normal…Bj

  10. Oi, Marjorie.
    Acho que vc acertou em cheio dizendo que a vilã sai por cima. O lance na representação não é nunca a cena em si, mas a cena seguinte, ou seja, como aquela cena se insere na narrativa. Ela apanha, OK, é feio — e sim, isso é recorrente nas novelas — mas sai por cima na cena seguinte, ou seja, apanha mas quem sai desmoralizados são os outros, e numa narrativa isso é mais forte que a porrada.
    Por outro lado, a partir do capítulo seguinte quase todas as mulheres da novela foram chamadas de vadias (e isso não era um elogio). Não só a própria Carminha, que alguém disse bem, não foi chamada de assassina ou criminosa, mas de vadia (mesmo o seu sensível Tufão vai depois dizer que ela está rodando bolsinha na esquina, como se isso fosse a coisa mais abominável que um ser humano pudesse fazer), também a Suellen, sempre elogiadíssima por esse mesmo motivo, passa a ser escurraçada por vadia, e tantas outras, a ponto de ficar mesmo incômodo assistir a alguns capítulos. Em geral essa novela valorizou as mulheres, mas isso, logo no final, faz parecer um retorno aos antigos valores, como um “e tudo voltou a ser como era antes”. Pega mal, e o pior é que, narrativamente, equivale ao “final feliz”.
    Esta é a última semana, torçamos para melhores momentos.

    • Verdade, Rafael. Ela foi mais xingada de vadia, cachorra, prostituta do que de assassina, ladra, etc. E isso tá muito errado. Também me incomoda o uso constante que essa novela faz das palavras “vadia” e “mensalina” (oi? alguém ainda fala mensalina em 2012?) não só agora no final, mas também durante a vingança da Nina, quando ela humilhava a Carminha. Tenho uma amiga professora na rede pública que se queixou justamente disso, uns dois meses atrás. “Eles falam vadia demais, as crianças assistem, não acho legal”.

      Por um lado, isso reflete o machismo da própria sociedade (que, quando quer ofender uma mulher, geralmente usa termos de cunho sexual). Por outro, o JEC podia — aliás devia — sim ter tido a responsabilidade de pesar menos a mão nisso aí. Concordo que pega mal.

      bjs

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