500 Dias com Ela e o ideal de amor romântico

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Trabalhinho da faculdade. Baixe aqui: http://www.4shared.com/office/apXLIksv/file.html?

Minha ideia inicial era fazer uma comparação entre 500 Dias e Bridesmaids (post abaixo) e como as expectativas de amor romântico são colocadas para homens e mulheres nos dois filmes. Mas o limite era de 10 páginas. De repente me vi na página 8 ainda escrevendo sobre 500 Dias, aí desisti de incluir Bridesmaids e só dei uma amarrada mambembe em tudo.

Quem tiver paciência, lê e depois volta aqui pra papear (só lembrando que a coisa fica mais inteligível se você ler os livros da Cathy Lee Preston e da Eva Illouz, que são a base teórica da bagaça. Lembre-se também que isso é só um trabalhinho de final de semestre e eu nem sei se a fessôra vai gostar ou não).

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Recadinho pra todo mundo

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Vamos falar de coisa boa?

Quem estiver interessado em fazer o GEMMA, o programa de mestrado que eu faço (e tem grana pra se bancar sozinho), as inscrições para estudantes sem bolsa estão abertas! Vai lá: http://masteres.ugr.es/gemma/

Vale MUITO a pena. São oito universidades, das quais você escolhe duas (uma para o primeiro ano, outra para o segundo). E, nesse ano, tem duas novidades:  a primeira é que a turma nova tem uma universidade a mais entre as opções  (Rutgers, nos EUA, que sempre ouvi falar como uma das melhores em estudos de gênero); e a segunda é que várias outras unviersidades (incluindo a Unicamp) passam a integrar o programa num esquema e-learning. A intenção é criar uma rede global de departamentos de estudos de gênero — não é muito amor?

O preço do curso é bem salgado (5.500 euros anuais), mas mais barato do que a maioria das universidades americanas e europeias (e brasileiras também, se você for fazer uma pós numa particular, por exemplo). Como vocês sabem, eu vim pra cá mesmo sem ter o dinheiro: tô me endividando lindamente, mas vivendo the time of my life (beijo, Patrick Swayze). No segundo ano, você pode tentar uma bolsa de novo.

Recadinho pra Talyta

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(to usando um teclado sem acentos, perdoem)

Interrompendo a programacao normal do blog pra fazer alguns comentarios sobre o presente de grego que a Folha de S. Paulo deu as suas leitoras no dia internacional da mulher:

1) Alguem avisa a Talyta que o feminismo nao se resumiu nem se resume apenas a demanda de insercao no mercado de trabalho.

2) Basicamente, a Talyta diz que as mulheres adentraram o mercado de trabalho porque o mercado assim impos, e nao porque houve um movimento politico exigindo isso. Logo, ela nao deve nada ao feminismo. No texto, a Talyta se chama de “intelectual”. Quem sou para contestar como as pessoas querem ser chamadas, nao eh mesmo? Mas, olha soh, achar que um fato historico tao significativo quanto a (re)insercao das mulheres (de classe media, ja que para as pobres ficar em casa nunca foi opcao) no mercado de trabalho tenha ocorrido devido a um unico fator, e nao a combinacao de fatores diversos… Tai a coisa menos “intelectual” que alguem pode fazer.

3) “Como mulher e intelectual, posso afirmar sem pestanejar: nunca precisei lutar para ser ouvida”. Voces nao adoram quando alguem super privilegiado fala como se TODO MUNDO tivesse a mesma experiencia leite com pera que ele? Tipassim: “como isso nao acontece comigo, entao nao acontece com mais ninguem”.

Talyta, eu tambem raramente preciso lutar para ser ouvida no meu dia a dia. Nasci no Brasil, um pais sem muitos conflitos, numa familia de classe media, tive acesso a educacao de qualidade, empregos bacanas, e agora to estudando na Zoropa. Mas existem marromeno 3,5 bilhoes de outras mulheres no mundo, sabe. Muitas delas precisam, sim, lutar para serem ouvidas, para terem sua integridade fisica e emocional preservada, etc. Fica a dica. O mundo nao se resume ao seu umbigo.

4) Voce nao precisa lutar para ser ouvida hoje, mas e no passado, era assim? As mulheres tinham espaco para escrever no jornal, como vc esta fazendo agora? Ou voce acha que a antes inimaginavel possibilidade de escrever num jornal tambem eh consequencia apenas da inflacao entreguerras?

5) O mais engracado eh que a Talyta faz um mimimi danado, dizendo “ai, nao pode nao ser feminista. Nao pode criticar o movimento senao voce eh tachada de anti”. Entao, gata, nao sei o que vc quer. Sim, voce pode nao ser feminista. Tanto que esta declarando livremente que nao o eh. Ninguem esta botando uma arma na sua cabeca para que voce o seja. Sim, voce pode criticar o movimento. Tanto que esta fazendo isso no jornal de maior circulacao do pais. Mas, se vc nega a importancia da propria EXISTENCIA do movimento, se vc escreveu um texto inteiro dizendo que as conquistas atribuidas a ele na verdade nada tem a ver com ele, se diz que nada deve a ele, como mais podemos te classificar a nao ser como uma pessoa contra o movimento? Se vc eh contra o movimento, entao vc eh contra o movimento ue. Como mais classificar o seu argumento? Abrace-o e assuma-o, gata. Ou, em portugues claro, se nao sabe brincar, nao desce  pro play.

PS — eu sei que depois do ditabranda, da ficha falsa da Dilma e de tantas outras delicinhas, nao se pode esperar mais nada da Folha. Mas nao custa dizer, neh. Que artigo *ruim*. Mal escrito, mal argumentado, sem nenhuma perspectiva historica. Como eh que publicam um negocio desses? Cade menino criterio?

Bridesmaids: eu curti

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ATENÇÃO: ALÉM DE CONTER SPOILERS, ACHO QUE ESSE POST SÓ DÁ PARA ENTENDER SE VOCÊ VIR O FILME ANTES.

Eu curti Bridesmaids. Por quê:

1) Pelo que o filme representa na indústria hollywoodiana. Uma comédia só com mulheres (quem disse que mulher não é engraçada?), com tema centrado em amizade e experiências femininas. E ainda atingindo recordes de bilheteria. Não é a melhor comédia do mundo (e deve-se sempre lembrar o fato de incluir mulher não quer dizer que as mensagens serão contra-hegemônicas). Mas o filme tem sua importância, e temos de reconhecê-la.

2) Tem a personagem da Melissa não sei das quantas, aquela que faz Mike and Molly. Ela é algo. A feminilidade dela não é nada tradicional. Ela é gorda, desbocada, arrota, caga na pia, desce a porrada. Mas não é lésbica, como seria o clichêzão. Ela é hetero e dá em cima de um cara no avião. E, embora pareça a personagem mais seca e fria do filme, é dela uma das cenas mais fofas. Quando todo mundo vira as costas à Annie, ela a visita. Aí a Annie começa a reclamar de tudo o que está dando errado em sua vida — e, num dado momento, diz que não tem amigos. “Como assim você tá reclamando que não tem amigos, quando eu acabo de vir à sua casa só para perguntar como você está?”, responde a outra. Também nessa cena, ela revela que é extremamente inteligente e bem-sucedida. Em vez de apenas a weirdo do filme, como seria o clichêzão.

3)Porque esta é uma história de mulheres tendo de lidar com a mensagem de que casamento/romance é solução de vida, o objetivo final para toda mulher. Todas crescemos com essa mensagem. Espere o príncipe encantado e blablabla. E aí temos de amadurecer e desconstruir isso aí. E é um processo complicado, esse de desconstrução. Repare que *todas* as casadas do filme são infelizes. A rica chatona que parece ter a vida perfeita se sente extremamente sozinha. E é por isso que tenta *comprar* a amizade da noiva. A loira (sorry, eu sempre esqueço os nomes das pessoas nos filmes) não faz sexo de qualidade e tem filhos mal agradecidos.

Eu amei a cena do avião, em que a loira e a ruiva (que está prestes a se casar virgem e olha para a loira como se a vida dela fosse tudo) se beijam. Adorei que tem uma cena dessas num filme todo centrado na heterossexualidade. Porque, né. Tinha esse desejo aí nelas. E aí o filme mostra que de repente o caminho pode ser esse. É uma pena que depois essas duas personagens sumam na trama. Seria bacana se elas pudessem evoluir. E aí, o que a loira vai fazer com os filhos malcriados? Como vai recuperar sua vida sexual? E a ruiva? Vai se permitir ter outras experiências?

4) A Annie tá tentando desconstruir isso tudo também. Mas a Annie é a solteira. A Annie é a forever alone. A Annie é moça daquela música da Lilly Allen, “22”: “It’s sad but it’s true, how society says her life is already over. Until the man of her dreams comes along, picks her up and puts her over his shoulder”. A Annie transa com caras babacas, só para se sentir desejada. E fica esperando que eles se tornem príncipes encantados. Quem nunca? Eu já. A Annie é também o sonho americano que deu errado (faliu com o negócio próprio e está endividada).

Enfim, a Annie chegou aos 30 e não tem nada do que a sociedade diz que ela deveria ter. Enquanto isso, as amigas estão conquistando essas coisas. Uma bocó lá no Feministing disse: “Annie não me representa porque ela é invejosa, insegura e incapaz de ficar feliz pelos outros”. E né? Só posso lamentar o quanto a moça missed the point. O que vemos em Bridesmaids é a evolução de uma personagem. Nada mais humano do que sentir uma ponta de inveja dos outros, quando a sua vida está totalmente na merda. Ela se sente, sim, feliz pela amiga, mas também gostaria que as coisas dessem certo para ela. Ninguém é totalmente altruísta. E aí a gente vai acompanhando a Annie amadurecer, aprender a ter mais jogo de cintura, deixar de surtar e adquirir forças para seguir em frente.

Às vezes fico com a impressão de que algumas feministas só ficarão satisfeitas se a personagem feminina for absolutamente perfeita e empoderada. Só é positivo o retrato de uma mulher bem resolvida, sem inseguranças e que não dependa de um homem (emocional ou financeiramente) de forma alguma. Essa personagem só pode se relacionar com outras mulheres de forma cooperativa. Não pode desgostar ou competir com ninguém. Então, né. A questão é que essa mulher *não existe*. Ela é a mulher feminista ideal, de um mundo feminista ideal que infelizmente também não existe. E, não existindo, ficaria difícil para o público se identificar com uma personagem assim. Gente sem insegurança nenhuma, completamente auto-suficiente, hello, não há.

(O pior desse artigo do Feministing é dizer que o filme é “groundbreaking”, mas ao mesmo tempo “regressive” — como se isso fosse descobrir a América. Acho isso de uma burrice tremenda, porque nada nessa vida é 100% progressista ou 100% conservador. Toda produção cultural carrega em si os sinais do tempo em que foi produzida. A coisa mais burra que alguém pode se perguntar é: “esse comercial/filme/livro/clipe é feminista?”. Porque, ora, dá para fazer uma leitura centrada em gênero em relação a tudo. Não existe nada produzido fora desse mundo, que é um mundo estruturado em gêneros. E mesmo algo que já comece com esse objetivo, “vamos ser feministas”, sempre correrá o risco de carregar em si um pouco de conservadorismo. Se não em relação a gênero, em relação a classe, raça, sexualidade, seja lá o que for. Então, se a moça do Feministing tá esperando algo que seja apenas “groundbreaking”, nada mais, acho que ela vai esperar sentada o resto da vida para ficar satisfeita com qualquer produto pop)

Li no Feministing também a mulherada metendo o pau na protagonista de Girl with the Dragon Tattoo (no Brasil, acho que saiu como “homens que odiavam as mulheres”, algo assim, tô com preguiça de googlar). Veja você que temos uma personagem com uma sexualidade fluida e livre, que se vinga de homens misóginos (o seu estuprador e o de outras mulheres), cujas atitudes não se encaixam em padrões tradicionais de feminilidade. E mesmo assim teve feminista que reclamou. Porque ela transa com o Daniel Craig e fica meio apaixonadinha. Porque em alguns pontos do filme ela parece insegura. Porque o filme fala de misoginia e estupro (como se o simples fato de ter a misoginia e o estupro como temas implique automaticamente uma defesa dos mesmos). Assim fica difícil, né.

Agora, os problemas (de Bridesmaids, não de Girl with the dragon tattoo):

1) A cena do restaurante brasileiro. Fora o fato do garçom falar ESPANHOL (oi, cadê pesquisa?), por que apenas é o restaurante do Outro que dá intoxicação alimentar nos filmes americanos? Ninguém nunca passa mal comendo comida local, não? Achei a cena desnecessária e sem graça.

2)Mesmo este filme, que tem uma proposta mais bacana, acaba escorregando para o conto de fada. O final “feliz” da Annie é encontrar um homem bonzinho que goste dela pelo que ela é. Enfim, o príncipe chega. E né? Que saco. A mulher continua endividada, desempregada e morando na casa da mãe. Nada disso é resolvido. Mas ela arranja um namorado, então tá ótimo, podemos acabar o filme. Porque o maior dos problemas dela era esse. *facepalm*

Sexy and I know it

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Eu adoro esse clipe do LMFAO e as várias leituras subversivas que ele possibilita.

01) As sociedades ocidentais se baseiam numa série de binários. Natureza x cultura, corpo x mente, razão x emoção, masculino x feminino. No binário corpo x mente, a mente é relacionada à masculinidade e o corpo à feminilidade. Considera-se que a mulher seja o corpo, o corpo feminino é o próprio sexo. No entanto, taí esse novo homem, dizendo: “girl, look at that body”. E sentindo prazer com isso: “when I walk in the spot, this is what I see. Everybody stopping and starring at me”.

02) Eles dançam e se movimentam de maneira que é comum às mulheres fazerem nos clipes. E o humor vem dessa quebra de expectativa, dessa inversão de papéis — afinal, uma mulher fazendo isso é comum, é normal, é o que já está socialmente estabelecido como sexy. Mas quando um homem faz a mesma coisa, aí é engraçado, incômodo.

03) As mulheres, nesse clipe, são o sujeito que olha. “Female gaze” em vez de “male gaze”.

04) O falo (ereto) desde os gregos é símbolo de patriarcado, poder, dominação, etc. Mas aqui, o cara se sente fodão chacoalhando o seu pau mole. Olha isso, Ana Carolina.

05) Os machões musculosos do clipe (que simbolizam a masculinidade hegemônica, tradicional) no começo olham para os magrelos do LMFAO (masculinidades subordinadas) com desdém. Mas depois vão lá e entram na dança também. Sentindo-se ameaçados, resolvem competir. Mas, competindo, igualam-se aos outros, já que a dancinha foi o subordinado quem inventou. E aí o clipe termina com os homens todos juntos, se divertindo ao se exibir, rebolar, dar piscadinhas.

06) O mais incrível é o quanto isso é vendável. Tá aí, bombando. É lógico que ainda existe a posição tradicional. É só ver os comentaristas do you tube, falando: “que bicha” (mesmo os caras do clipe mostrando claramente que o querem é um olhar feminino). Mas o simples fato de que um clipe como este pode ser feito hoje, dentro de um esquema absolutamente comercial e mainstream, mostra que estamos avançando. Mesmo que a intenção seja ser irônico e engraçaralho, a mensagem tá aí. E um clipe desse só pode ser produzido hoje graças às teclas em que a gente vem batendo. Eu acho.